(Ponto de Vista de Olivia)
As palavras de Ethan ecoaram na minha mente por muito tempo depois que ele bateu a porta com força, e…
— Eu quero ver a Lily! — Ressoou como um grito que reacendeu minha raiva, fazendo meu sangue ferver de novo.
A dor apertou meu peito de forma brutal, e, enquanto o luto me engolia por completo, o pânico familiar começou a arranhar minha garganta. Ofegante, procurei desesperadamente o frasco do remédio no bolso, mas meus dedos trêmulos tentaram abrir a tampa em vão.
Vazio.
Um soluço escapou de mim quando desabei contra a parede, e, claro, só consegui pensar que estava vazio porque nada na minha vida parecia dar certo mais.
— Desculpa, Lily… — Sussurrei para o quarto silencioso, sentindo a voz falhar. — Eu sinto muito...
A culpa me atingiu em ondas, e doeu perceber que eu tinha tentado tanto proteger Lily da verdade sobre a indiferença do pai, inventando desculpas para suas ausências e criando justificativas para os aniversários que ele perdeu e para os eventos da escola que ignorou.
— O papai só está ocupado com os negócios da matilha, querida. — Eu dizia, observando o rostinho dela murchar de decepção, enquanto acrescentava: — Ele te ama muito.
“Que tola eu fui!” Meus esforços para criar uma imagem paterna amorosa só aprofundaram a dor de Lily, fortalecendo o apego dela a um pai que mal reconhecia sua existência.
Encarei o retrato de Lily no altar, e, ao ser confrontada por seus olhos verdes idênticos aos meus, cheios de ternura e fé, não consegui conter as lágrimas que escorreram pelo meu rosto diante daquela realidade cruel.
— Eu falhei com você. — Engasguei, sentindo a garganta fechar. — Não consegui te proteger dele, não consegui te salvar da doença e, agora, nem sequer consigo levar Victoria à justiça pelo que fez.
Como se tudo desabasse ao mesmo tempo, fui engolida pela culpa e pelo luto, incapaz de pensar ou sequer respirar, soterrada pelos próprios fracassos que se tornaram uma prisão sufocante.
“Eu precisava vê-la, precisava estar perto da minha filha…”
Então, sem pensar, agarrei as chaves do carro e saí noite adentro.
A estrada até o Cemitério Luar Sagrado era tão familiar que parecia automática, já que eu tinha feito aquele percurso inúmeras vezes nas noites insones desde o enterro de Lily. Os portões permaneciam destrancados, como se o próprio lugar entendesse que os mortos estavam em paz, e que os que chegavam durante a noite o faziam movidos por dores silenciosas demais para esperar o amanhecer.
Assim que parei o carro, alcancei com cuidado as pequenas oferendas: as flores brancas ainda frescas e o pacote de carne seca de veado que Lily tanto gostava. E com o rosto molhado de choro, senti o frio da noite me envolver enquanto caminhava pelos trilhos silenciosos e sombrios do cemitério.
Eu não sentia medo ao caminhar entre os túmulos, pois eram lugares de descanso, de memória e de luto, e, da mesma forma como minha Lily, todos ali tinham sido amados.
No entanto, ao me aproximar da lápide dela, uma cena inesperada me fez congelar: havia alguém ali, de pé diante do túmulo da minha filha: uma silhueta esguia recortada contra a penumbra.
E mesmo sob a luz tênue da lua, não tive dúvidas ao reconhecê-la: era Victoria Frost.
Senti o sangue gelar nas veias, e pensamentos indignados tomaram minha mente. “O que ela fazia ali? Que direito julgava ter de invadir o descanso eterno de Lily?”
Aflita, escondi-me atrás de um monumento próximo, espiando com os nervos em frangalhos, enquanto via, estarrecida, Victoria conversar com o túmulo da minha filha:
— Sua pirralha! — Ela cuspiu, com a voz clara na quietude da noite. — Até morta você continua me causando problemas!
O que ela dizia à minha filha morta era tão carregado de rancor, tão impregnado de veneno, que me senti enjoada, incapaz de acreditar no que estava ouvindo.
— Se não fosse por você, Ethan não teria sido obrigado a casar com aquela cadela ômega! — Continuou, andando de um lado a outro diante da lápide, enquanto dizia: — Ele já teria sido meu há anos!
No mesmo instante, cerrei os punhos com tanta força que as unhas se cravaram nas minhas palmas, porque não suportava a ideia de ela vir ao túmulo da minha filha para destilar tanto veneno.
— E agora ele está obcecado em te encontrar… — Victoria rosnou, cuspindo as palavras com raiva. — Ele me rejeitou hoje por sua causa!
Então, ela chutou o chão com violência, acertando as flores brancas que eu havia deixado na última visita, de modo que as pétalas se espalharam pela grama, esmagadas sob o salto dela.
— Você vai mostrar respeito! — Sibilei. — Ou juro pela Lua que acabo com você aqui mesmo!
Nesse instante, Victoria se desvencilhou, conseguindo se levantar, com o rosto corado de raiva e humilhação.
— Você vai se arrepender disso! — Ameaçou, avançando contra mim com as unhas prontas para me arranhar.
No entanto, agarrei o pulso dela com facilidade, torcendo até que ela arfasse de dor, e percebi que cinco anos de luto me tinham endurecido de um jeito que Victoria jamais compreenderia, pois eu já não era a Luna submissa e complacente que ela havia manipulado no passado.
— Não, Victoria… — Declarei friamente. — Quem vai se arrepender de ter vindo aqui hoje é você!
Minha mão aberta acertou o rosto dela com um estalo ensurdecedor, de forma que a cabeça dela virou de lado e uma marca vermelha surgiu na pele pálida.
Atordoada pelo primeiro tapa, ela cambaleou, sem reação. Mas não esperei que se recuperasse… Atingi-a novamente. Depois mais uma vez. E outra, sem parar.
A cada estalo de palma contra o rosto dela, eu vingava uma dor da minha filha. Um por cada lágrima de Lily, enquanto Victoria sorria com escárnio... Um por cada humilhação... E, principalmente, por aquele rim que deveria ter salvado minha menina e acabou sendo desviado para Emma sem explicação.
Logo, Victoria tombou, sem equilíbrio, os joelhos tocando o chão mais uma vez, perdida em meio à fúria que eu havia liberado sobre ela.
Naquele momento, meus olhos verdes arderam com uma fúria primal que eu jamais havia sentido, me fazendo enxergar apenas o vermelho, consumida pelo ódio diante de tudo o que Victoria tinha feito contra minha filha.
“Aquela mulher tinha contribuído para o sofrimento de Lily em vida, tinha manipulado Ethan, afastando-o da própria filha, e agora ousava profanar o túmulo dela e amaldiçoar seu espírito?
Não! Eu não permitiria…”
Assim, segurei Victoria pelos ombros e a empurrei para trás, batendo a cabeça dela contra a lápide de Lily.
No mesmo instante, o estrondo cortou o silêncio da noite: um grito surdo de dor e proteção, traduzindo com perfeição a fúria visceral de uma mãe e o amor profundo que nutria por sua filha.

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