(Ponto de Vista de Ethan)
O vídeo prosseguiu, exibindo Lily com o rostinho banhado em lágrimas, encostada em Olivia, tremendo a cada soluço e tentando, com a voz entrecortada, reafirmar sua inocência.
— Eu não empurrei a Emma, mamãe… — Com os olhos esmeralda, tão semelhantes aos da mãe, abertos em angústia, ela chorou sem conseguir conter o pavor. — Foi ela que me empurrou primeiro, e depois ela caiu sozinha.
A emoção crua em sua voz apertou meu peito. Eu sabia que crianças eram capazes de mentir, mas a dor verdadeira no rosto de Lily tornava impossível duvidar dela. Ela parecia febril, com as bochechas avermelhadas e a testa coberta de suor, que Olivia enxugava com cuidado, passando um pano frio como se, com aquele gesto, tentasse aliviar não só a febre, mas também o sofrimento da nossa filha.
— Eu acredito em você, meu amor… — Murmurou Olivia, acariciando os cabelos de Lily com doçura. — Eu sei que você não machucaria ninguém.
As palavras seguintes de Lily me atravessaram como uma lâmina prateada, porque ela sussurrou com o coração partido:
— Então por que o papai não acredita em mim? Por que ele ama mais a Emma do que a mim?
Pausei o vídeo, incapaz de assistir ao resto, e a pergunta ecoou na minha mente como uma acusação contra a qual eu não tinha defesa, de modo que me perguntei: “Como pude ser tão cego a ponto de assumir, sem hesitar, o pior da minha própria filha?”
Emma passara dias ansiosa para conhecer a nova “irmã”, falando sobre Lily com entusiasmo e me olhando com tamanha admiração que a possibilidade de ela tê-la empurrado de propósito soava absurda.
Ainda assim, as filmagens não mostravam culpada alguma com clareza, já que num instante as duas estavam paradas junto à piscina e, no seguinte, Emma estava dentro d’água, gritando.
E ainda que nada estivesse certo, minha reação foi imediata: acusei Lily sem questionar, sem buscar provas ou sequer escutar sua versão.
Foi então que o toque do celular me arrancou dessas lembranças conturbadas, trazendo o nome de Victoria à tela.
— Ethan? — A suavidade de sua voz contrastava com o tom levemente ofegante que a acompanhava. — Você vai buscar a Emma no centro de treinamento? Você prometeu a ela ontem.
A culpa me invadiu ao perceber que tinha esquecido completamente.
— Estarei aí em vinte minutos.
— Está tudo bem? Como está sua avó?
— Está estável. — Respondi, desligando o computador. — Te dou mais detalhes quando estiver aí.
Encerrei a chamada, ainda com a mente em turbilhão, porque a verdade sobre Emma era mais uma fonte de culpa, já que eu a mantivera em segredo da minha matilha por tanto tempo, permitindo que rumores se espalhassem sobre meu relacionamento com Victoria.
— Viram? Esse é o meu papai!
Os outros filhotes me encararam com olhos arregalados, impressionados, e eu estava bem ciente do impacto da minha presença, pois o Rei Alfa da Matilha Crista de Prata não costumava fazer aparições pessoais nos centros de treinamento.
Logo, Emma correu até mim com os braços abertos, e eu a ergui com facilidade, acomodando-a no meu quadril enquanto ela me envolvia o pescoço com os bracinhos.
— Papai, você me viu praticando? O professor disse que fui a melhor da turma hoje!
— Sinto muito por ter perdido. — Respondi, levando-a em direção ao carro. — Quem sabe na próxima?
Victoria seguiu ao nosso lado, sorrindo discretamente ao observar nossa interação, e os olhares invejosos de outros pais não me passaram despercebidos, tampouco os sussurros que nos seguiram até o estacionamento.
Já dentro do carro, depois de prender Emma com segurança no banco traseiro, voltei a pensar no incidente na Piscina da Reflexão ao Luar, e a pergunta escapou antes que eu pudesse me conter:
— Emma, você se lembra do dia em que conheceu a Lily? Lá na piscina?
Num reflexo quase instintivo, Victoria ficou tensa e segurou minha mão com firmeza discreta, e, naquele momento, a felicidade estampada no rosto de Emma perdeu parte do brilho.

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