Beatriz lançou-lhe um olhar frio.
Daquela distância, as outras pessoas poderiam não perceber o lampejo de orgulho nos olhos de Melissa, mas Beatriz conseguia ver com clareza.
Aquele olhar lhe era familiar.
Toda vez que Melissa falava de forma digna de pena, escondia aquilo nos olhos, como uma pequena agulha num punhado de algodão, que não dava para notar se não visse bem.
Todo mundo era enganado pela aparência dela, incluindo Thiago.
Beatriz falou com calma: — Não precisa provar nada.
Melissa hesitou e não entendeu.
Beatriz: — Ficar tentando provar se me empurrou de propósito só mostra que você tem culpa.
O rosto de Melissa mudou e as lágrimas ficaram ainda mais visíveis. Ela abaixou a cabeça, mordeu os lábios e a voz saiu trêmula.
— Beatriz, ontem a situação era mesmo de urgência. Eu fiquei com medo de que ele me batesse.
Ela levantou a cabeça para olhar Beatriz, com uma expressão sincera e com um pouco do medo do que acontecera no dia anterior.
— Beatriz, sabe como eu tenho passado todos esses anos? Aquele homem me batia e me xingava. Quando estava bem, a gente parecia marido e mulher normais. Quando ele ficava mal, bebia e me batia. Não queria mais passar por aquilo...
Beatriz ouviu aquilo e sentiu um pouco de pena.
Qualquer mulher que foi vítima de violência era digna de pena e fazia as pessoas quererem protegê-la. Ela queria que as mulheres se rebelassem e deixassem aquilo.
Mas sabia que Melissa não permitiria que a machucassem e usaria tudo que podia a seu favor. Ela havia percebido aquilo ontem.
Não ia mais deixar que sua gentileza fosse explorada. Ela a olhou e falou com calma:
— Já fugiu agora. Não precisa me contar coisas do passado. Fique com um pouco de dignidade.
Ao terminar, passou por Melissa.
Atrás dela, Melissa ficou paralisada por um momento, e alguns colegas conversaram.
Alguns membros do grupo largaram os pratos e saíram. Estavam animados.
Já esperavam há muito tempo, e o Instituto, que corria risco de fechar, pôde descansar um pouco.
Beatriz hesitou e havia gentileza no olhar.
Ela não comeu muito e também saiu.
Na porta do Instituto, havia caminhões que iam parando. Operários iam tirando a carga, equipamentos que as pessoas descarregavam brilhavam.
Todos perderam o ar e se espantaram:
— Céus. Esse é o modelo mais novo do espectrômetro de massa.
— E esse, vi em uma exposição e era bem caro!
— A Chefe Melissa é ótima. Chegou há pouco tempo e conseguiu coisas boas. Não vamos ter de nos preocupar e teremos pesquisa mais certa agora.

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