Fernando Albuquerque
Sentei-me na poltrona de couro do meu escritório pela décima vez naquela manhã, revisando o currículo da próxima candidata. A sala estava silenciosa, exceto pelo tique discreto do relógio antigo sobre a minha mesa. Hoje, tudo parecia mais lento. Mais pesado.
Escolher a nova babá da Lia não era só uma formalidade. Era pessoal. Sempre foi. Carmem ficou conosco por quase dois anos, tempo suficiente para se tornar quase parte da família. Mas a gestação complicada da filha dela a fez decidir se afastar, e eu jamais colocaria minhas prioridades acima da saúde de alguém tão dedicada.
Agora, aqui estou eu outra vez, sentado em frente a estranhas que sorriem nervosas e tentam me convencer de que são capazes de cuidar da minha menina. A maioria não passa de alguns minutos na sala; outras conseguem durar mais, mas nenhuma, até agora, fez o instinto dentro de mim dizer sim.
Fechei a pasta da candidata atual e respirei fundo. Precisei de uma pausa.
Levantei-me da cadeira, sentindo minhas costas estalarem discretamente. Horas sentado sempre cobram um preço, mesmo num corpo forte como o meu. Estiquei os braços acima da cabeça, alongando músculos que vivem em tensão constante. A barba arranhou levemente quando passei a mão pelo rosto.
Caminhei até uma das janelas panorâmicas do escritório. O jardim lá fora estava perfeitamente aparado, como tudo que eu exijo dentro desses portões. Cores vivas, organização, ordem. Tudo em contraste com o que carrego por dentro.
Aos trinta e oito anos, carrego mais fantasmas do que qualquer homem deveria. Quatro anos já se passaram desde que perdi minha esposa… mas ainda lembro do telefonema como se tivesse acontecido ontem. Ela havia bebido demais numa festa, nada fora do comum para alguém tão sociável quanto ela. Mas decidiu sair dirigindo. Uma escolha impensada, impulsiva… e fatal.
A combinação perfeita para a tragédia que destruiu nossos sonhos.
Desde então, aprendi a calar tudo. A dor. A culpa. A parte de mim que ainda espera que a porta se abra e ela entre rindo, espalhando alegria.
Enterrei tudo no único lugar que sei controlar: trabalho.
E hoje, ironicamente, estou aqui tentando abrir uma fresta mínima dessa fortaleza para alguém que terá acesso ao que tenho de mais precioso: Lia.
Sou um homem alto, forte, com a aparência que costuma intimidar, e sinceramente, não faço esforço para suavizar nada disso. Os cabelos castanhos estão alinhados como sempre, a barba aparada com precisão quase militar. Minha seriedade serve ao propósito: distância.
Meus olhos são frios… gelados. Assim é o que todos dizem. E talvez estejam certos. Depois que se perde tudo, o gelo é mais fácil de carregar do que o fogo.
No meu braço, sob a manga da camisa, repousam tatuagens que poucos tiveram a chance de ver. Símbolos. Datas. Histórias que guardo na pele e não na boca. Porque falar dói. Lembrar machuca.
Sou o proprietário e CEO da Albuquerque Systems, uma empresa de tecnologia e segurança que cresceu mais rápido do que minhas emoções conseguiram acompanhar. E no topo, onde todos acham que está o glamour, existe apenas solidão. E eu me adaptei a ela, melhor do que deveria.
O homem que eu era se foi com minha esposa naquela estrada. O que restou… é isso: foco, controle, precisão e paredes altas demais para alguém atravessar.
Ninguém entra.
Ninguém se aproxima.
Ninguém me machuca.
Exceto minha filha.
E é por ela que respirei fundo, voltei à mesa e apertei o botão no interfone:
— Pode mandar a próxima candidata.
Limpei a garganta, recuei para o meu tom impessoal, o que afasta qualquer um, sempre.
— Sim. Sou Fernando Albuquerque. Pode se sentar, senhorita… Lizandra, certo?
Ela assentiu de forma rápida, e caminhou até a cadeira à minha frente. O rubor ainda marcava seu rosto, mas seus passos eram firmes. Nervosa, sim. Assustada, talvez. Mas não frágil.
Peguei o currículo sobre a mesa, tentando manter meus olhos onde deveriam estar: no papel, não nela. Deus, que esforço. O perfume suave dela parecia ter preenchido o escritório inteiro, bagunçando qualquer tentativa minha de racionalidade.
— Vejo que trabalhou em duas famílias anteriormente e é recém-formada em pedagogia— folheei o currículo com calma. — Idades parecidas com a da minha filha.
— Sim, senhor. — A voz dela tremeu um pouco. — Fiquei com cada criança até que a família se mudou.
Tentei me concentrar nas palavras, mas fui atraído pelo desejo de olhar para ela. Lizandra repousava as mãos sobre o próprio colo, entrelaçadas. As unhas curtas. Não usava aliança. Uma postura educada. A moça na minha frente tinha algo gracioso, e isso a tornava um perigo para mim.
— Quantos anos você tem? Perguntei já sabendo a resposta.
— Vinte e quatro.
Seus traços delicados aparentavam ter um pouco menos. Muito jovem para estar sentada à minha frente me encarando com aqueles olhos enormes e atentos, tentando provar que merecia um lugar no centro da minha vida. Porque cuidar da minha pequena Lia, é exatamente isso. Um centro.
Eu não deveria estar sentindo nada disso. Nada mesmo. E, ainda assim, ali estava eu… lutando contra o próprio olhar para não encará-la por tempo demais.

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