Para Vitória, aquele café era o mais amargo que já tinha tomado.
Não pelo gosto, mas pelo peso que vinha junto.
Ela observava o movimento da rua pela vidraça, pessoas indo e vindo com uma liberdade que parecia distante demais. Perguntava-se, em silêncio, quando seria a vez dela. Quando teria o direito de viver a própria vida.
Será que depois do casamento?
Será que poderia se casar… e simplesmente existir?
Pensou em Rafael. Pensou na possibilidade de dizer a ele que, depois da cerimônia, queria ser livre — e que ele também poderia ser. Desde que fosse discreto. Nada de escândalos, nada que chegasse à imprensa ou às famílias.
Talvez, se fosse direta, ele se incomodasse.
Talvez desistisse.
A ideia quase a fez sorrir.
Mas seus pensamentos foram interrompidos pela voz firme à sua frente.
— Eu sei o que você está pensando — disse Rafael, encarando-a sem suavidade —, mas eu não vou desistir desse casamento.
Vitória ergueu o olhar lentamente.
— Você pode falar ou fazer o que quiser — ele continuou —, mas esse casamento vai acontecer.
Ela sentiu o impacto das palavras, mas não deixou transparecer. Ainda assim, algo a incomodava profundamente.
Por que aquele homem queria se casar com ela?
Por quê, se não havia interesse algum entre eles?
— Você é sempre tão séria em eventos — Rafael disse, apoiando a xícara na mesa com força contida. — Difícil de ler suas expressões. Mas agora… agora é fácil demais saber o que você pensa. — Ele a olhou com claro desgosto. — E isso me incomoda. Esperava mais de você.
Vitória sentiu o sangue ferver.



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