Vitória mal havia dado alguns passos dentro de casa quando ouviu a voz baixa e contida do secretário do pai.
— Senhorita Vitória, o Sr. Alencar pediu que a senhora vá ao escritório assim que chegasse.
Ela assentiu, sem surpresa.
O escritório ficava no fundo do corredor principal, longe das áreas comuns. Um espaço pensado para decisões importantes e conversas que não admitiam réplica.
O pai já a aguardava, sentado atrás da mesa larga de madeira escura. Estava concentrado em alguns papéis, óculos apoiados no nariz, a postura rígida de sempre. Não levantou o olhar quando ela entrou.
— Sente-se — disse, simples, como uma ordem rotineira.
Vitória obedeceu.
O silêncio se estendeu por alguns segundos, quebrado apenas pelo leve deslizar dos dedos dele sobre o papel.
— Fui informado de que o encontro com Rafael não terminou como o esperado — disse ele, finalmente. — Você saiu antes do previsto.
— A conversa havia se encerrado — respondeu ela, com a voz controlada.
— Encontros como esse não existem para conversas agradáveis — rebateu ele, sem dureza aparente, mas com firmeza suficiente para esmagar qualquer tentativa de defesa. — Existem para alinhar expectativas. E você precisa aprender a manter as aparências, independentemente do que sente.
Vitória sentiu o estômago revirar.
— Não houve escândalo — disse. — Ninguém nos viu discutir.
— Ainda assim, você precisa entender o seu papel — continuou ele, apoiando os cotovelos na mesa. — O casamento com Rafael não é um teste emocional. É um compromisso estratégico. E compromissos não podem falhar por causa de temperamento.
Ela respirou fundo.
— O senhor fala como se fosse simples.
— Porque é — respondeu ele, sem hesitar. — Basta fazer o que se espera de você.
Vitória sustentou o olhar do pai.
— E o que exatamente se espera de mim?
Ele inclinou a cabeça levemente, como se a pergunta fosse desnecessária.
— Discrição. Postura. Neutralidade. — Enumerou com calma. — Você não precisa gostar dele. Precisa apenas não comprometer o acordo.
Silêncio.
— Oito meses passam rápido — acrescentou. — E, até lá, qualquer atitude sua reflete diretamente nesta família.
Vitória sentiu o peso daquilo se acomodar sobre os ombros.
— Entendi — respondeu, mesmo que tudo dentro dela gritasse o contrário.
— Ótimo. Pode ir.
Ela se levantou e saiu sem olhar para trás.
No corredor, encontrou a mãe parada perto da escada. Verônica parecia ter escutado parte da conversa — ou talvez apenas reconhecesse o olhar da filha depois de anos convivendo com aquele silêncio forçado.
— Ouvi vozes — disse baixo.
— Está tudo bem — respondeu Vitória automaticamente.


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