O silêncio na biblioteca era mais espesso que a escuridão atrás do painel de madeira aberto. Olívia permanecia de joelhos no chão frio, o vazio do quarto de Léo ecoando em cada batida do seu coração. O nome "Helena" girava em sua mente, uma faca giratória que refazia cada memória de cuidado, cada gesto de afeto, em pedaços de uma manipulação perfeitamente arquitetada.
Ela levantou o olhar para a passagem secreta. A escuridão lá dentro parecia respirar, um pulmão úmido e antigo da mansão.
— Eu vou entrar — sua voz saiu rouca, mas firme, carregada de um desespero que já se transformava em algo mais perigoso: uma determinação cega.
— Olívia, não — Ian tentou, colocando a mão no seu braço. — Não sabemos o que há lá. Pode ser uma armadilha.
— Meu filho está lá! — ela gritou, sacudindo-o. — Ou pelo menos, o caminho para ele começa ali! Você vai ficar aqui calculando riscos enquanto ela some com ele?
Sem esperar por resposta, ela se levantou e marchou em direção à abertura escura. Ian e Matheus trocaram um olhar rápido e a seguiram, Matheus acionando uma lanterna tática.
A passagem não era um simples corredor. Era uma entrada para um mundo subterrâneo que a mansão escondia. Degraus de pedra úmida desciam em espiral, as paredes eram de alvenaria antiga, fria ao toque. O ar cheirava a terra, mofo e algo mais — o cheiro metálico do tempo e do segredo.
A sala no fundo não era um esconderijo improvisado. Era um bunker. Iluminada por uma luz LED fria alimentada por uma fonte independente, havia prateleiras com equipamentos de comunicação antigos e novos, monitores de segurança (alguns mostrando câmeras que nem Matheus conhecia), arquivos em pastas metálicas e… uma pequena cama de campanha. Uma mamadeira vazia estava em cima de uma mesa de centro.
Olívia engasgou ao ver a mamadeira. Ela tocou o bico de silicone, ainda morno. Ele estava aqui. Minutos atrás.
— É um posto de comando — Matheus murmurou, impressionado e furioso. — Ela monitorava tudo daqui. Toda a segurança, todos os nossos movimentos… ela via.
— E dava as informações — Ian completou, sua voz gelada. Ele abriu uma das pastas. Documentos antigos. Relatórios sobre Diana. Fotos de Olívia criança que ele nunca vira. — Ela não era uma sentinela só para o Léo. Era uma espiã. Plantada pelo meu avô. Para vigiar… tudo.
Olívia não se importava com as revelações do passado. Seus olhos vasculhavam a sala, procurando por pistas, por um bilhete, por qualquer coisa que levasse a Léo. Foi então que Matheus apontou sua lanterna para o fundo da sala. Havia uma porta de metal, entreaberta. Atrás dela, um túnel escuro que parecia se estender para longe, sob os jardins.
— Um túnel de escape — Matheus disse. — Deve sair além dos muros da propriedade. Ela saiu por aqui. Já mandei a equipe cobrir todas as saídas possíveis num raio de cinco quilômetros. Ninguém sai da cidade. Estamos fechando o cerco.
— O cerco? — Olívia riu, um som amargo e quebrado. — Enquanto vocês brincam de cerco, meu filho está com uma mulher que passou meses fingindo ser uma família para nós! Ele deve estar assustado! Chorando por mim! E eu… eu estou aqui, parada, esperando?
A impotência a consumia por dentro, um ácido corroendo sua sanidade. Ela começou a caminhar de um lado para o outro no bunker apertado, suas mãos apertando os cabelos. Ian tentou se aproximar.
— Olívia, precisamos ser estratégicos. Se corrermos cegamente…
— ESTRATÉGIA? — ela se virou para ele, seus olhos faiscando com lágrimas de raiva. — Estratégia é o que nos trouxe até aqui, Ian! Suas estratégias, seus planos, seus segredos! E onde está meu filho? ONDE?
Ninguém teve resposta. O peso da culpa, da falha, era palpável no ar frio do bunker.
Foi então que o som a fez congelar.
Vibração.
Era seu celular, ainda no bolso do casaco sujo de lama da floresta. Um som comum, que agora soava como um trovão.
Com mãos trêmulas, ela o pegou. A tela iluminou seu rosto pálido.
Número Desconhecido.
Seu coração parou. Ela atendeu, colocando no viva-voz, suas mãos tremendo tanto que quase derrubou o aparelho.
— Olívia, querida.
A voz do outro lado era de Helena. Mas não a voz doce e maternal que ela conhecia. Era uma voz calma, ligeiramente cansada, mas carregada de uma autoridade tranquila e inquestionável. Era a voz da Sentinela.
— Helena — o nome saiu como um rosnado de Olívia. — Onde está o Léo? Se você machucar um fio de cabelo dele, eu juro…
O grito que saiu de Olívia não foi de dor. Foi do som de sua alma sendo arrancada. Ela caiu no chão frio do bunker, o telefone escorregando de seus dedos, seu corpo todo convulsionando com soluços violentos e silenciosos. A imagem do seu filho, assustado, usado como isca, pedindo por ela… foi a gota que quebrou o que restava de sua resistência.
Ian se ajoelhou ao seu lado, tentando envolvê-la, mas ela se debateu, cega pela agonia.
— Ela… ela fez ele escrever… — Olívia chorou entre soluços. — Ele está tão assustado… meu bebê… meu bebê…
Matheus pegou o telefone do chão, examinando a foto e o endereço com olhos de profissional, mas mesmo seu rosto rígido mostrava a tensão da crueldade da jogada.
Ian segurou o rosto de Olívia, forçando-a a olhá-lo. Seus olhos também estavam úmidos, mas neles havia uma tempestade de fúria que prometia aniquilação.
— Olívia. Escuta-me. Você não vai sozinha.
— EU TENHO QUE IR! — ela gritou, sua voz falhando. — Você viu a foto, Ian! Ele precisa de mim!
— E nós vamos trazê-lo de volta — Ian jurou, sua voz um som baixo e mortal. — Mas não seguindo as regras dela. Ela espera que você vá, desesperada e sozinha. Ela não está esperando por mim.
Ele se levantou, olhando para Matheus.
— O estaleiro. Estrutura de concreto, múltiplas entradas, vista para o rio. Ela escolheu um campo de batalha. Então vamos para a batalha. — Ele olhou para Olívia, ainda tremendo no chão. — Você vai, Olívia. Mas nós estaremos lá. Em cada sombra. Em cada telhado. E quando ela mostrar o Léo… nós tomamos ele de volta. E terminamos isso.
Olívia olhou para ele, para a fúria absoluta e o amor devastado em seus olhos. A esperança era uma chama fraca e trêmula dentro do abismo do seu desespero. Mas era tudo o que ela tinha.
Ela assentiu, um movimento pequeno e quebrado.
Eram 4h da manhã. O céu ainda estava escuro, mas a noite mais longa de suas vidas estava apenas no meio. E no fim dela, às margens do rio escuro, um filho esperava pela mãe. E uma sentinela antiga esperava para encerrar, de uma vez por todas, a sinfonia de mentiras que sua família cantava há gerações.

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