— Resumindo em uma frase: "O pai do Cláudio e os seus vários filhos".
Vitória Lacerda ouviu o resumo irônico e clínico de Fernando Pereira e não soube se ria ou se chorava.
— Você é—
Antes que a frase saísse, algo estalou na mente de Vitória. Ela arregalou os olhos, encarando-o com um brilho intenso e inquisidor.
— Você já sabia desde o começo?!
Fernando deu de ombros.
— Só descobri um pouquinho antes de você.
Vitória Lacerda não comprou a modéstia.
— O que foi que você viu dessa vez? Mais uma pegada no chão?
Ela ainda tinha a memória fresca e assustadora de como, no caso Viviane Reis, Fernando Pereira conseguiu deduzir toda a identidade do assassino a partir de uma única pegada.
— Não. Dessa vez, eu aprendi com você.
Vitória Lacerda: "..."
Acreditar nas palavras de Fernando Pereira era tão confiável quanto acreditar em mula sem cabeça.
— Fala sério. — ela retrucou.
Ela estava ali, analisando o caso com o maior rigor e seriedade do mundo, gastando o resto de seus neurônios.
E o cara ainda tinha coragem de tirar sarro da cara dela.
Fernando Pereira lançou a ela um olhar de resignação calculada.
— É verdade, eu aprendi com você.
Sem paciência para aquele joguinho, Vitória fuzilou Fernando com o olhar, virou as costas e começou a andar apressada em direção à saída da delegacia.
Fernando riu pelo nariz e apertou o passo para alcançá-la.
— Vi...
— Vitória!
A voz entusiasmada e pegajosa de Isaque Cavalcanti sufocou a fala de Fernando.
Fernando parou de andar abruptamente. Seus olhos se cravaram na figura de Isaque, que estava parado na frente da delegacia — Deus sabia há quanto tempo — esperando como um cachorrinho abandonado. O olhar do detetive foi esfriando a cada segundo.
Isaque ainda segurava as flores amassadas e uma sacola de aplicativo de entrega de comida.
Depois de todo aquele tempo, a comida com certeza já estava dura e fria.
E como previsto, Isaque sorriu, sem graça, e abriu a sacola:
— Eu dei uma olhada agora há pouco e a comida já esfriou. Vitória, vamos para casa, eu faço um lanche para você, que tal? Depois de tanto tempo trabalhando, você deve estar morrendo de fome.
— Me dá só mais uma chance para me explicar, por favor, só uma!
Vitória Lacerda sentia um nojo profundo de Isaque, mas também sabia que se dissesse não, aquele cara iria assombrá-la e persegui-la feito um encosto.
Ela ponderou por um segundo, decidindo que era melhor acabar com aquilo logo.
— Vamos.
Os olhos de Isaque brilharam de alegria.
— Então entra no meu carro.
Vitória franziu a testa, sentindo um arrepio de nojo.
— Esquece. Deus sabe o que você andou fazendo dentro desse carro.

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