Quando Vitória Lacerda chegou à sala da força-tarefa, o pessoal estava jantando.
O quadro branco estava coberto de fotos. O oficial responsável por analisar as câmeras segurava um pote de miojo, enfiando macarrão na boca enquanto mantinha os olhos grudados na tela.
A energia caótica e focada do ambiente fez o cansaço de Vitória diminuir um pouco.
— E aí, alguma novidade?
Vitória perguntou, sentando-se em sua mesa e notando Sérgio Castro meio aéreo.
— Nada muito claro ainda.
— Entrevistamos os vizinhos e o síndico. A conclusão geral é que a família de Cláudio Mendes era comum, sem grandes luxos ou problemas.
— Se formos apontar algo, a mãe do Cláudio tinha uns hábitos bem irritantes.
Vitória pensou um pouco:
— Tipo jogar lixo na porta dos outros? Mimar demais os netos?
— Isso.
Sérgio entregou os depoimentos a ela.
— A velha tinha uma língua afiada. Era a rainha dos barracos no condomínio.
— E não brigava só com os vizinhos. Se alguém a contrariasse, ela soltava os cachorros sem piedade.
— Não poupava nem os prestadores de serviço que iam na casa deles.
Vitória passou os olhos pelos papéis, perguntando por instinto:
— O que ela fazia com eles?
— Uma vez, o técnico que foi limpar o ar-condicionado tomou esporro do início ao fim porque ela achou ele "muito lento".
— Outra vez, a unidade externa do ar pifou e ela chamou a assistência. Não sei que briga tiveram, mas a velha simplesmente segurou a corda de segurança do técnico que estava pendurado do lado de fora do prédio. Ameaçou soltar se ele não isentasse a taxa de serviço em altura. Deixou o cara pendurado lá fora de castigo.
Vitória ficou muda:
— ...
— Deu a maior confusão. O vizinho de baixo chamou a polícia, e os oficiais tiveram que intervir pra velha soltar a corda.
— O Cláudio Mendes teve que pagar uma grana extra pro técnico, além de dar bebida e cigarro pra ele não processar a mãe.

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