Sem pensar duas vezes, as pessoas começaram a despejar sua frustração em cima de Vitória Lacerda.
— Que mulherzinha desumana! A gente acabou de escapar da morte. É óbvio que estamos desesperados para saber o que aconteceu. Ela precisava mesmo partir para a agressão?
— Eu conheço essa garota do chão. Dizem que ela estava aqui esperando alguém. Coitada, que falta de sorte dar de cara com um incêndio logo no nosso bloco. Quando eu estava descendo, vi ela correndo e chorando, deu até dó.
— Tsc, tsc... Como se não bastasse a tragédia que aconteceu, a gente ainda tem que aturar gente fria assim destratando os outros.
— Exatamente! O mundo está perdido mesmo. Hoje em dia qualquer vira-lata vira policial. O que uma mulher dessas pode saber?
— Não tem o mínimo de empatia e quer trabalhar na polícia? Vai resolver que caso desse jeito?
As ofensas e críticas vinham de todos os lados.
Vitória não tinha feito absolutamente nada, mas estava sendo crucificada em praça pública.
Foi essa a cena que Fernando Pereira encontrou ao voltar de uma conversa com os policiais locais.
Kelly Lacerda fazia escândalo jogada no chão, enquanto Vitória estava de pé, isolada, sendo apontada e julgada por todos.
Ele franziu as sobrancelhas, mas não deu um passo à frente. Apenas ficou parado ali, observando.
— Capitão, não vamos lá intervir?
O policial ao lado dele também via a cena e já estava fervendo de raiva.
A Dra. Vitória era o orgulho da delegacia. Aquela multidão não sabia de nada e ficava inventando mentiras sem prova alguma.
— Não precisa. — respondeu Fernando. — Ela sabe lidar com isso.
O policial olhou para o capitão, surpreso.
Quando ia perguntar como ele tinha tanta certeza, ouviu a voz de Vitória ecoar.
— Kelly Lacerda, você sabe qual é a pena por calúnia contra um funcionário público no exercício da função?

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