— Na verdade, a lista de crimes do Jay vai muito além desses assassinatos recentes que investigamos.
O tom de voz de Fernando Pereira era pesado e frio como gelo.
— Quando ainda era menor de idade, ele estuprou uma viúva que morava na vizinhança deles.
— O problema é que essas mulheres já levavam uma vida miserável. Para evitar o escândalo e a vergonha, elas engoliam o choro e guardavam o segredo. Esse silêncio absoluto foi o adubo perfeito para a maldade do Jay crescer.
— A preferência original dele sempre foi por mulheres mais velhas. E, conforme ele foi amadurecendo fisicamente, essa pulsão doentia só piorou.
— Até o dia em que a mãe dele morreu.
Quando Ângela completou trinta anos, conseguiu seduzir um empresário rico.
O ricaço até que a tratava bem no início, chegando a prometer que a tiraria daquela vida e se casaria com ela.
Mas, como sempre, o cara se cansou rápido.
Especialmente quando parou de encontrar prazer no corpo desgastado de Ângela, ele começou a buscar estímulos usando métodos muito mais extremos e violentos.
Jay assistiu, escondido, enquanto a própria mãe era brutalizada e torturada até a morte em uma sessão de sadismo pelo empresário. E o mais macabro de tudo: antes de dar o último suspiro, Ângela não pedia por socorro. Ela apenas sussurrava, com o cérebro totalmente corroído por anos de manipulação psicológica, que tudo seria diferente se ela fosse mais jovem.
Foi essa frase que fez a mente de Jay virar a chave de um extremo ao outro.
Ele reprimiu sua obsessão natural por mulheres maduras e começou a caçar garotas jovens, tentando entender o que elas tinham de tão valioso.
— O motivo de ele ter criado todo aquele teatro para incriminar o Antônio Loureiro como bode expiatório, foi porque ele enjoou do próprio jogo. E pior: ele percebeu que não conseguia mais controlar o que sentia por você.
Os dedos de Vitória Lacerda sofreram um espasmo involuntário.
— Por favor, não use palavras que façam isso soar como uma história de amor profundo.
Apesar de ser uma médica legista que passava os dias abrindo cadáveres sem piscar, saber que um estuprador em série nutria fantasias perversas por ela ainda lhe causava arrepios na espinha.
Não havia paixão ardente ali. Era só o desejo sujo de um psicopata, e isso dava ânsia de vômito.
— Resumindo a loucura: ele achou que se conseguisse possuir você, finalmente conseguiria exorcizar o fantasma da mãe e voltar a ser ele mesmo. Voltar às origens dele.
Vitória Lacerda engoliu em seco, lutando contra a bile que subia pela garganta.
— Eu só tenho uma exigência nessa história toda.
Fernando Pereira, sempre atento, serviu um copo de água e colocou nas mãos dela:
— Pode falar.
— Quando transformarem essa aberração em um caso de estudo para as academias, garantam que o meu nome não seja mencionado. Podem inventar uma vítima fictícia.
Se a comunidade policial inteira ficasse sabendo que a fria e respeitada Dra. Vitória Lacerda virou a fantasia sexual de um serial killer, ela não teria mais cara para aparecer em congresso nenhum.
— Pode deixar.

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