— Eu não tive sorte na vida. Perdi meus pais quando era criança, meu marido morreu cedo, depois minha filha mais velha cortou laços e se casou longe, e, por fim, meu filho morreu... — Enquanto falava, as lágrimas da Dona Benedita começaram a cair. — A minha vida inteira, nunca tive em quem me apoiar, fui superando um obstáculo de cada vez.
— Por isso, quando recebi a notícia e fui a Alvorada recolher o corpo do Sarnento, e vi a Gabriela na casa deles, fui egoísta. Eu queria encontrar um apoio para mim, e a Gabriela seria esse apoio. — Ela fungou e limpou as lágrimas e o ranho do rosto com as costas da mão.
— Naquela época ela era só um bebê! Hoje tem apenas seis anos! — Como mãe, Alice não conseguia sentir compaixão nenhuma por Dona Benedita.
— Eu sei, mas eu realmente a criei. — A Dona Benedita olhou para Alice com certa agitação. — Quando a vi na casa do Sarnento, ela parecia um gatinho doente, mal conseguia chorar. Fui eu que lhe dei água, e só assim ela se recuperou um pouco, senão teria morrido.
Alice cerrou os punhos, e o ódio que sentia por Camila Cavalcanti e Yara Inácio aprofundou-se ainda mais.
— Não estou dizendo isso para que você tenha pena de mim. Eu cometi um erro, eu sei. Eu sabia que a criança não era minha neta, mas fui egoísta e a trouxe comigo. E, depois de trazê-la, não a criei direito, só pensava em quando ela crescesse para me servir e me sustentar. Por separar vocês duas, eu mereço ser cortada em mil pedaços.
A atitude da Dona Benedita era muito sincera, mas Alice não havia ido até lá para ouvir sua confissão.
— Vá direto ao ponto.
A Dona Benedita ergueu a cabeça, com lágrimas nos olhos: — O que quero dizer é que toda a culpa é minha e do meu filho, o Sarnento. O Sarnento traficava pessoas, ele merecia morrer, e morreu. Eu fui egoísta, peguei a filha de outra pessoa e a maltratei, e agora estou presa. Mas a minha filha, a Marta, não tem nada a ver com isso. No máximo, ela foi um pouco má com a Gabriela nesses últimos dias, mas não é um crime que mereça a morte. Eu sei que você e o seu homem...
Os olhos de Alice piscaram. Sebastião não era o homem dela, mas ela não via necessidade de explicar aquilo naquele momento.
A Dona Benedita continuou: — Vocês são pessoas poderosas, esmagar a gente é como esmagar formigas para vocês. Se têm ódio ou ressentimento, descontem em mim, não dificultem a vida da Marta. Ela é uma mulher sozinha, com filhos e sem marido, a vida dela já é muito miserável, eu imploro a vocês.

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