Alice Almeida olhava para Canino, magra a ponto de ser pele e osso, sentindo uma mistura de sentimentos difíceis de descrever.
A criança estava incrivelmente suja, muito mais do que os meninos travessos da região. Seus cabelos também haviam sido cortados bem curtos, num estilo caseiro feito com uma tesoura cega, deixando-os totalmente irregulares. Não havia um único centímetro limpo em todo o seu corpo. Até aquele momento, Alice Almeida nem sequer havia conseguido ver com clareza o verdadeiro rosto da criança.
O mais crucial era que a criança possuía uma agressividade extrema. Quando estava alerta ou com medo, em vez de escolher fugir, sua primeira reação era atacar.
Mesmo que o oponente fosse alguém muito mais forte, ela atacaria sem hesitar.
Além disso, seu nome também era bastante enganoso.
Canino...
Mesmo a família mais ignorante não daria o nome de Canino a uma menina, daria?
Juntando todos esses detalhes, era inevitável que Alice Almeida presumisse de antemão que Canino fosse um menino.
No entanto, ela jamais imaginou que fosse, na verdade, uma garotinha.
— Venha, venha cá. Não tenha medo, vou dar um banho em você — disse Alice Almeida, com a voz muito mais suave.
Ela ligou o chuveirinho e, com movimentos suaves, derramou a água morna sobre o corpo de Canino.
— Quente... — O corpo da criança se enrijeceu visivelmente assim que entrou em contato com a água, e seu olhar tornou-se perdido e desorientado.
— Queimou você? — Alice Almeida afastou o chuveirinho apressadamente.
Ela testou a água na pele do próprio braço; a temperatura estava perfeita, não muito quente, perfeitamente aceitável para uma criança.
Desde o nascimento de Júlio, era essa a temperatura que ela usava para lhe dar banho. Com o passar do tempo, seu corpo já havia memorizado a sensação; bastava um leve toque para confirmar.
Canino, no entanto, continuava encarando o chuveirinho com desespero. Em seguida, estendeu a mãozinha de forma vacilante para tocar a água que espirrava.
Havia uma exploração cautelosa em seus olhos, seguida pela surpresa ao constatar a sensação.
— Canino, você nunca tomou banho com água quente, não é? — Alice Almeida compreendeu a situação instantaneamente.
— Nunca... — Canino balançou a cabeça.
À medida que a sujeira era gradualmente lavada, a pele verdadeira da criança foi sendo revelada.
Ao olhar, Alice Almeida não conseguiu evitar um suspiro brusco.
A criança não era só muito magra, com os ossos aparecendo sob a pele, como também tinha o corpo cheio de hematomas de todos os tamanhos.
Antes, como o corpo dela estava coberto de lama, Alice Almeida desconhecia a existência das manchas roxas. Por isso, ao esfregar a toalha, fora inevitável usar um pouco de força e, consequentemente, pressionar aqueles machucados.
Contudo, desde o começo, a criança não soltou um único gemido, tampouco se mexeu.
Permaneceu ali, parada e dócil, deixando que Alice Almeida a lavasse.
— Como você conseguiu esses machucados? — perguntou Alice Almeida, tocando levemente os hematomas.
Os lábios de Canino se apertaram numa linha fina e ela voltou a ficar calada.
— Está doendo? — Alice Almeida não insistiu, preocupando-se apenas com a dor da menina.

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