Naquela noite, não foi apenas Alessandra que teve dificuldades para adormecer.
Camila também se revirou na cama, incapaz de pegar no sono.
Ela viu o nome de Henrique nos assuntos mais comentados.
Imaginou que o "compromisso" mencionado por Henrique se tratava de algo importante ocorrido na empresa.
Jamais esperava que o "compromisso" de Henrique fosse acompanhar outra mulher em um passeio pelo shopping!
Agora fazia sentido ela não ter recebido aqueles cem mil reais, e ele não ter feito mais nenhuma transferência.
Era claro que ele estava com um novo amor!
Mas como poderia ser? Ele claramente gostava tanto dela!
No fim, não resistiu e enviou uma mensagem para Henrique pelo WhatsApp.
“Henrique, hoje você saiu para fazer compras com outra pessoa, foi isso?”
Ao receber essa mensagem, Henrique não respondeu.
Ele já havia adormecido.
Henrique sempre teve um sono de boa qualidade, adormecia assim que deitava.
No entanto, o toque do telefone às quatro da manhã o acordou.
Virando-se na cama, ele estendeu o braço longo para pegar o celular no criado-mudo.
Na tela do celular, aparecia um número desconhecido.
Henrique tinha um costume: sempre atendia chamadas de números desconhecidos.
Isso porque, no início, ele deixava seu próprio número nos anúncios de pessoas desaparecidas que publicava.
Depois, devido ao excesso de ligações inoportunas, passou a colocar o número de Amanda.
Amanda também começou a receber muitas ligações de desconhecidos, então nos últimos dois anos passaram a utilizar os números de algumas secretárias.
Caso recebessem alguma informação útil, fariam a verificação e, após confirmar, informariam Amanda, que, por sua vez, repassaria para ele.
Mas o número dele nunca mudou.
Talvez alguém tivesse visto um anúncio antigo e ligou para ele por engano.
Henrique sentou-se parcialmente na cama, atendeu ao telefone com um toque no visor, a voz levemente rouca: “Alô!”
Do outro lado, houve um segundo de silêncio, então ouviu-se uma voz masculina, baixa, sem emoção perceptível: “Procuro Alessandra. Ela está aí?”
Henrique franziu a testa: “Quem é você? O que deseja com Alessandra?”
A irmã tinha acabado de voltar, quem ligava para ela no meio da madrugada?
Tu...tu...tu...
A ligação foi encerrada abruptamente, sem mais palavras.
Henrique ficou confuso e devolveu a ligação.
Ninguém atendeu.
No escuro, o rosto de Henrique ficou tenso, o sono praticamente foi embora.
Fausto perseguiu sua irmã por três anos; seria perfeitamente capaz de reconhecê-la apenas pelo perfil ou pelas costas.
Esse sujeito não só era volúvel, como também utilizava Camila para criar rumores e se promover. Não era boa pessoa.
Provavelmente a irmã ainda gostava dele, por isso Henrique não podia permitir que Fausto se aproximasse dela novamente!
O coração de Henrique disparou algumas vezes, e ele imediatamente bloqueou o número que havia acabado de ligar.
Pensou em responder Camila, mas, considerando que ela poderia já estar dormindo, preferiu não enviar mensagem tão tarde para não perturbá-la.
Henrique não respondeu, largou o celular e voltou a dormir.
Alessandra, apesar da curiosidade sobre quem teria ligado para Henrique àquela hora, não tinha o hábito de ouvir conversas alheias.
Ela foi até a sala beber água, mas não voltou para o quarto.
Como não conseguia dormir, caminhou até a varanda do segundo andar, apoiou o queixo com uma mão e ficou observando o céu.
Às quatro da manhã, Celestina do Sol permanecia absolutamente silenciosa, como um dragão adormecido.
O céu estava enevoado, com visibilidade muito baixa.
Por isso, Alessandra não percebeu o carro estacionado na rua em frente à casa.
Dentro do veículo, havia um olhar pegajoso fixado nela.
O ar estava um pouco frio, com um leve cheiro metálico, e uma dor ardente percorria sua palma.
No entanto, o belo homem tinha um brilho de excitação nos olhos.
Algumas veias saltavam em sua testa, mas isso não o tornava feio; ao contrário, lhe conferia uma beleza estranha e quase sobrenatural.

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