Ontem, decidi dar uma escapada da escola fingindo estar doente. No entanto, hoje, acordei com os sintomas de uma gripe real. Uma parte ínfima de mim se alegrava por ter um motivo legítimo para faltar, o que, por sua vez, significava que eu não precisaria vê-lo.
Lá no fundo, pulsava o desejo intenso de nunca mais colocar os pés naquela escola, e até mesmo de partir para uma cidade completamente diferente, onde a possibilidade de encontrá-lo se dissipasse no ar.
"Tem certeza de que consegue ficar sozinha?", indagou minha mãe, receosa.
"Sim, mamãe. Vou ficar bem. Pode ir trabalhar. Se eu precisar de alguma coisa, te ligo, OK?"
Sorrindo, ela assentiu.
"Então, já vou indo. Deixei seu café da manhã lá na mesa. Não se esqueça de comer e tomar seus remédios."
Fiz que sim e fechei os olhos, ouvindo-a descer as escadas.
Sem perceber, acabei pegando no sono e, quando despertei, já era quase meio-dia.
Tentei me levantar da cama, mas estava muito fraca.
"Ai..." Sentindo meu corpo doer, enterrei o rosto de volta no travesseiro.
Assim, perdi a noção do tempo, até que percebi passos se aproximando.
Não poderia ser Ashley, pois ela só voltava do trabalho às seis... Será que era a mamãe? Mas por que ela voltaria para casa tão cedo?
Como se fossem levados pelo vento, meus pensamentos se dissiparam quando a porta se abriu e Hayden entrou.
Meus olhos se arregalaram, e pus as mãos em frente à boca para não gritar.
Ele usava a mesma bota de sempre, acompanhada por calças jeans e uma jaqueta de couro, e seu cabelo escuro estava despenteado, como se ele tivesse passado os dedos por ele.
Depois de lançar um breve olhar em minha direção, ele aproximou-se, a passos largos. Seria mera coincidência, ou o quarto parecia encolher?
Ao chegar ao pé da cama, ele parou.
"Você não foi pra escola ontem", constatou ele.
Apenas respirei fundo. Ele estava tão perto...
Muito perto...
Memórias de nós dois, e de todos os eventos daquela noite, invadiram minha mente. Em um salto, me sentei e me encolhi ao fundo da cama, buscando criar um espaço entre nós.
Porém, fui surpreendida por uma forte dor de cabeça.
"Você tá doente?"
Então, ele notou? Foi impressão minha, ou havia uma pitada de preocupação em seu tom?
Quando esse pensamento surgiu, quase não consegui conter o riso.
Hayden, estava preocupado comigo?
Mas nem que a vaca tussa!
"Tá fazendo o que aqui?", questionei, tentando soar o mais firme que pude. No entanto, minha voz saiu rouca e aguda. "Vá embora..."
Eu estava realmente mal, e a presença dele só piorava tudo. Será que eu não poderia ao menos ter paz em minha própria casa?
Nos encaramos por um tempo e, por um milagre, ele foi o primeiro a desviar o olhar.
Suspirei enquanto ele saía do quarto, seus passos ecoando.
Ele se foi?
Pressionei a mão contra o meu peito, ofegando.
Contudo, meu alívio durou pouco, pois, logo, ouvi seus passos novamente.
Desta vez, ele entrou segurando uma pequena bacia repleta de água, com uma toalha descansando sobre um dos seus amplos ombros.
A maneira como ele percorria minha casa, indo e vindo, me deixava profundamente desconfortável. Como ele sabia que não havia mais ninguém em casa além de mim, a ponto de entrar pela porta da frente?
"V-Você não pode a-andar pela minha casa, c-como se..." Meu discurso foi engolido pelo olhar intenso que ele me dirigiu, e minha frágil coragem, recém-descoberta, simplesmente desapareceu.
"Chegue mais perto", ordenou ele, pondo a bacia sobre o criado-mudo.
Assustada, neguei com a cabeça.
"Por enquanto, tô tentando ser educado. Não me faça repetir", disse ele, tranquilo. Contudo, pude sentir o tom ameaçador em sua fala.
"N-Não p-preciso que v-você cuide de mim. P-Posso m-me virar sozinha..."
Seus olhos estreitaram-se em resposta às minhas palavras, e ele deu um passo à frente, sentando-se à beira da minha cama. Instintivamente, recuei ainda mais, desejando desaparecer por completo.
"Não tô pedindo, coelhinha. Tô mandando. Agora, deite e relaxe", insistiu ele, com um sorriso malicioso.
Me perguntei o que ele via de divertido nisso.
E ele acabou de me pedir para relaxar?
Neste momento, eu era capaz de tudo, menos relaxar.
Ele me lançou um último olhar, assegurando-se de que levasse suas palavras a sério.
À medida que ele se retirava, uma lágrima solitária escorreu pelo meu rosto, encontrando refúgio no lençol macio da minha cama.
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Uma semana depois...
Algo estava diferente entre nós.
Quando tínhamos aulas juntos, ele simplesmente me ignorava.
Mesmo quando nos cruzávamos no corredor, ele nem olhava para mim.
Não me interpretem mal, fiquei muito feliz com isso.
Porém, ainda não pude deixar de me perguntar se ele estava planejando algo.
Hoje, estávamos indo a uma excursão com a professora de arte, e eu precisava aproveitar a oportunidade para compensar as notas ruins que havia tirado.
De repente, senti vontade de ir ao banheiro e me levantei.
"Tá indo aonde?", perguntou Lyn.
"Err... preciso ir ao banheiro antes de sairmos."
Ao percorrer o corredor, dobrei em uma esquina e, quase que por um triz, evitei colidir com duas pessoas que me eram familiares...
Hayden e Brittany.
Ela estava recostada na parede, enquanto eles se beijavam com fervor, os dedos dele explorando cada centímetro do corpo dela.
Eu deveria ter saído, mas parecia que meus pés estavam colados no chão.
Com um sorriso sugestivo, ele apertou a b*nda dela, provocando um gemido alto, que a levou a se empinar para ele.
Neste momento, senti uma pontada de algo semelhante ao ciúme correr por mim.
"Tá fazendo o que aí!? Já não viu o suficiente!?" A voz de Brittany me tirou do meu transe.
Num impulso, saí dali. Passando por eles, corri até o banheiro, sentindo meu coração bater descompassado, como se tivesse sido pega em flagrante cometendo um crime.
Longe de mim estar com ciúmes. Não me importava nem um pouco com quem ele dormiu. Mas e se ele contrair uma doença e acabar me transmitindo?
Em pensamento, torci para que ele simplesmente me apagasse da memória e continuasse a me ignorar, exatamente como vinha fazendo nos últimos dias.

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