Ernesto respondeu com um “hum” e desistiu da ideia de retornar a ligação, guardou o celular e entregou um cartão dourado: “Fique com essa, por favor. Embale para presente.”
“Sim, senhor.” A vendedora sorriu radiante; sempre que o Sr. Siqueira aparecia, sua meta mensal ficava garantida.
*
O hospital estava lotado, mas graças ao arranjo de Fábio, conseguiram acomodar Viviana em um quarto.
Após todos os exames, o médico trouxe alívio a Samara.
A mãe dela sofrera apenas um ferimento na cabeça, um corte, mas felizmente o cérebro não fora atingido e não havia sinais de concussão. Com alguns dias de repouso, ela poderia ter alta.
Samara suspirou aliviada e afundou-se na cadeira.
Fábio serviu-lhe um copo d’água e o entregou: “Que bom que está tudo certo. Você não quer ir para casa agora? Caso contrário, quando o Sr. Vieira chegar, temo que ele se exalte novamente.”
Samara tomou um gole d’água; seus dedos tremiam levemente ao segurar o copo. Ela suspirou: “Seis anos se passaram, e só agora descobri que tenho uma irmã.”
Ela fitou a mulher adormecida na cama; tantos anos sem vê-la, Viviana envelhecera bastante.
O tempo deixara marcas profundas em seu rosto; mesmo dormindo, a tristeza parecia impregnar-se em suas feições.
A mão de Fábio, pousada em seu ombro, apertou-se suavemente. “Como ficou sabendo?”
Samara não respondeu; manteve o rosto abaixado. “Na verdade, vocês não precisavam esconder de mim. A família Vieira não me reconhece como filha, e eu até temia que, ao perderem sua razão de viver, acabassem partindo como meu irmão. Agora, com uma nova filha, sinto até certo alívio.”
Ela pousou a mão sobre o próprio ventre, e uma expressão cálida apareceu em seu rosto: “Além disso, agora terei meu próprio filho, alguém com quem compartilho laços de sangue. Fábio, não sou tão frágil assim.”
Ao observar o olhar sereno de Samara, percebia-se uma tranquilidade e bondade de quem já superou tudo.
Um sentimento complexo percorreu o coração de Fábio.
Ainda que soubesse que aquelas eram palavras sinceras, não podia deixar de sentir que a vida havia sido injusta demais com Samara.
Ela era mesmo merecedora de compaixão.
Teve que suportar, sozinha, a dor de perder o irmão e a família, e ainda sorrir com generosidade para abençoar os demais.
Fábio suspirou e afagou seus cabelos: “Esqueceu? Eu também sou da sua família.”
“Não seja piegas, Dr. Almeida.” Samara sorriu levemente e apoiou-se na mesa para se levantar.
Ela então tirou um cartão da bolsa e o colocou sob o travesseiro da mãe.
Com os dedos, tocou da borda do travesseiro até a face de Viviana, alisando centímetro a centímetro cada ruga; de repente, o olhar de Samara suavizou-se.
Ambos saíram do quarto em silêncio e, só então, a mulher na cama abriu lentamente os olhos.

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