Ela já conseguia sentir os movimentos dos dois gêmeos que carregava no ventre.
Ela havia feito exames na clínica do Grupo Campos várias vezes e sempre diziam que era um único bebê.
— Doutor, guarde os fetos que foram retirados nessa urna. Sem mais lágrimas nos olhos, Alana entregou uma urna funerária preta ao médico.
Depois de fechar a tampa da urna, ela a envolveu em papel de presente preto e amarrou um laço por cima. Se não soubessem o que havia dentro, pareceria um presente comum.
Segurando a urna preta com os restos dos seus dois filhos contra o peito, ela saiu do hospital e rumou de volta para a Mansão das Águas.
Mal entrou na mansão, a babá se aproximou com o rosto fechado e estendeu o celular: — É uma ligação da Dona Helena.
Alana não pegou como de costume. A babá achou estranho e colocou no viva-voz:
— Saí para tomar o chá da tarde. Quando eu voltar, quero um ensopado de peixe branco, faça tudo perfeitamente. E também, deixei minhas roupas usadas na lavanderia. Como sempre, lave todas as roupas à mão, passe e guarde nos devidos lugares. Você deve esfregar todo o piso de joelhos três vezes, e eu vou conferir tudo ao chegar. Hoje mesmo, dê folga para todos os funcionários da Mansão das Águas. Você vai ser responsável por todos os afazeres sozinha.
A ligação foi encerrada.
Com a urna dos dois filhos nas mãos, Alana olhou ao redor daquela mansão imensa.
Arthur não a amava, e Dona Helena Campos também não gostava dela como nora.
Dona Helena dizia estar ali para tomar conta dela, mas na realidade a tratava como uma empregada. Mesmo sabendo da gravidez, continuava exigindo que Alana a servisse em tudo.
Além disso, sempre que Alana chegava do trabalho, ela deixava uma pilha infinita de tarefas pesadas e sujas para mantê-la ocupada o dia todo.
A certidão de casamento não tinha nenhum valor aos olhos da sogra e do marido; ela só era vista como uma empregada contratada para servir a família. Na verdade, sua condição era pior que a de uma babá: ao menos a babá recebia salário e não era obrigada a gerar filhos para a família.
Desta vez, Alana não agiu como antes, pegando os ingredientes para trabalhar sem reclamar na cozinha; ela se virou e subiu as escadas.
Vendo o comportamento atípico de Alana, a babá virou as costas e ligou para reclamar com Dona Helena!
Ouvindo as palavras exageradas, Alana continuou a ignorar.
De volta ao quarto, ela olhou para a foto de casamento emoldurada e depois para a urna que carregava. Aquele lugar nunca lhe pertencera; já era hora de abrir os olhos para a realidade.
Em meio a seus pensamentos, o celular tocou.
Ela o tirou da bolsa, olhou para o identificador de chamadas e teve um momento de confusão. Era surpreendentemente uma ligação de Henrique.
Sem hesitar, Alana atendeu.
— Henrique, sou eu... Eu... sou Alana.
— Alana, você não precisa mais me ligar. Da última vez você me pediu para ajudá-la a recusar o convite do Projeto Fênix do governo. Eles viram a sua determinação em recusar, souberam que você estava grávida e concordaram em encontrar outra pessoa. De agora em diante, ninguém de nós vai mais incomodá-la. O Professor também não. Viva sua vida em paz.
Ao ouvir essas palavras, Alana ficou paralisada por um longo tempo.
Desde a faculdade, ela era um talento cultivado em segredo, participando de diversos projetos de pesquisa confidenciais do governo federal. Depois, até se juntou a Henrique e abriu uma empresa.
Com a ajuda de sua tecnologia, em um ano, a empresa abriu capital e ela se tornou a principal acionista nos bastidores.
Posteriormente, ela participou diversas vezes do desenvolvimento de projetos confidenciais do governo. Vários pesquisadores de peso no país a conheciam e queriam aceitá-la como aprendiz...
Mas ela se apaixonou pela pessoa errada. Por culpa de Arthur, abandonou uma carreira promissora, recusou convites de projetos importantes e passou os dias só com tarefas domésticas insignificantes da casa dos Campos.
E também, por isso, recusou inúmeros convites para projetos de pesquisa nacionais que outras pessoas imploravam para conseguir.
Ela desperdiçou quatro, quase cinco anos de sua vida por um homem que não a amava.
Quando encontrasse Arthur, contaria a ele que os dois bebês tinham morrido e que aquele casamento chegaria ao fim naquele instante.
A gravidez só estava no quarto mês, mas mesmo assim, a perda dos gêmeos exigiria um longo período de repouso pós-aborto.
Alana olhou-se no espelho, inchada devido à gravidez. O casaco preto de plumas estava manchado de sangue e exalava o cheiro de sangue.
Ela se limpou e jogou fora as roupas manchadas de sangue.
Quando Alana estava prestes a arrumar suas coisas para ir embora, a babá bateu à porta: — O senhor voltou e pediu para você descer.
Alana ficou um pouco surpresa.
Ele era o líder da família Campos, uma figura superior. Desde que ele casou com ela e ela se mudou para lá, ele quase nunca pisou naquele lugar.
Só na empresa ela podia vê-lo e falar com ele.
Então, por que ele veio hoje?
Seria por causa do bebê, ou ele queria falar com ela sobre o que aconteceu no hospital?
Ou perguntar por que ela tinha ligado tantas vezes para ele.
Com inúmeras suposições na cabeça, Alana desceu as escadas, mas tudo o que ouviu foi a frase:
— Não tem tempo para fazer o pré-natal, mas tem tempo para me seguir?

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