POV/ CHARLLOTE
— Todo local tem banheiros. — Ele rebateu, sem se impressionar.
— Vai ficar me entediando? Qual é a especialidade da casa?
— O quê? — Ele piscou atordoado com a minha audácia e soltou um risinho de canto. — Bom... Temos Whisky, Gin, Rum, Vodka.
— O que menos mata. — Respondi de pronto.
O homem ergueu uma sobrancelha, pegou uma garrafa de líquido transparente e despejou em um copo curto. Virou a dose na minha direção.
— Cadê o canudo? — Perguntei, olhando para o copo pequeno.
O barman parou todos os movimentos com as mãos e ficou me olhando. Passaram-se cinco segundos, mas ele não disse nada. Olhei para ele novamente e ele me olhou de volta, olhou para o copo e depois para o meu rosto.
Aí ele respondeu:
— Isso... é... um... shot. — Ele disse, pausadamente.
— Ah... — Fiquei completamente sem graça, sentindo as minhas bochechas queimarem. — Então vocês bebem errado por escolha.
Peguei o copo com os dedos trêmulos e entornei o líquido na boca de uma vez só. No mesmo segundo, o fogo explodiu na minha garganta. Muito mais forte que vinho ou champanhe.
Comecei a tossir de forma desesperada, batendo no peito com a mão livre enquanto tentava respirar. Fiquei um bom tempo limpando as lágrimas que escorreram até o ar voltar ao normal. O homem apenas me assistia com os braços cruzados sobre o peito nu.
— Quer água?
— Não. — Falei, mas pensei: por que a gente tem que beber água depois de beber um shot?
Ele balançou a cabeça sorrindo, um sorriso lindo, muito lindo.
Caramba.
Minhas bochechas queimaram ainda mais de vergonha. Desviei o olhar para o lado com pressa. Depois, virei o rosto de leve e comecei a observar discretamente o peito dele, reparando nos detalhes dos músculos. O sujeito mexeu o braço rápido e percebeu o meu mapeamento visual na mesma hora.
— Tinha uma mosca no seu ombro. — Disparei a primeira mentira que passou pela minha cabeça para disfarçar o flagrante.
O homem olhou para o próprio ombro nu, voltou a me encarar e deu um sorriso cínico.
— Ela morreu de rir e foi embora. — Ele desdenhou.
Nunca mais invento uma desculpa dessas. Empurrei o copo vazio para a frente para tentar mudar de assunto.
— Me dá mais uma dose.
Ele colocou a segunda quantidade do líquido. Eu virei com muito mais cuidado dessa vez.
Tentei me ajeitar na banqueta alta para recuperar a minha postura de mulher experiente, mas acabei errando o apoio do pé de metal e o meu corpo pendeu feio para o lado esquerdo. Quase caí direto no granito do chão. Firmei as mãos no mármore com pressa e estiquei os dois braços para cima em um movimento rápido.
— Eu só... queria dar uma alongada. — Justifiquei, fingindo naturalidade. — É que eu sempre testo os móveis antes de confiar neles. O banco passou no teste e a mesa também. Era um teste de estabilidade.
O homem mordeu o lábio inferior na tentativa de esconder um sorriso, mas vi os lábios se contorcerem e ele voltou a limpar a bancada com o pano.
— Você costuma alongar, fazer esses testes, derrubar bandejas, em todo lugar que entra? — Ele perguntou, sem tirar os olhos do trabalho.
— Não. — Respondi, muito séria.
— Você veio sozinha?
— Sim.
— Corajosa.
— Não. Desesperada. — Soltei a verdade sem querer, o álcool fazendo efeito.
Antes de sair, ele me deixou um copo alto com um líquido amarelo intenso e uma rodela de limão boiando. Eu não fazia ideia do que era aquilo, mas o álcool já estava flutuando na minha cabeça. Dei o primeiro gole. O gosto era... diferente. Dei o segundo. O terceiro foi mais rápido. Eu estava com tanta vergonha de estar ali que só queria que o tempo passasse.
Passou um tempo. Quando ele voltou para o balcão, ajeitando as guirlandas de garrafas, eu empurrei o copo vazio na direção dele, tentando manter a pose de mulher experiente que nunca tinha entrado em um lugar daqueles.
— Mais um. — Pedi.
Ele arqueou uma sobrancelha, foi em direção a uma portinha que tinha e voltou com outro copo com aquele líquido meio amarelo e a rodela de limão.. Eu peguei o vidro, dei um gole grande e franzi o nariz imediatamente.
— Nossa, isso é muito ruim. — Reclamei.
— É água com limão. — Ele respondeu, seco.
— Água? Você serve isso para todo cliente?
— É para ver se você volta para o planeta Terra.
Fiquei encarando o copo de água com desgosto.
Olhei para o sujeito de novo, analisando discretamente o peito nu dele. Que desperdício de homem ignorante.
— Agora me diz o que você quer? — ele perguntou desviando o meu foco do seu peitoral musculoso.
— Um homem.
— O que?
— É isso que você ouviu. — Apertei o copo com força e repeti. — Um homem.
— Por que você quer um homem? — Ele perguntou do nada, voltando a limpar o balcão.
— Eu não quero um homem. Eu preciso de um.

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