Liliane
Meu pai havia me chamado para conversar. Já fazia uma semana desde que eu tinha chegado e voltado a me ambientar.
Minha mãe olhou diretamente para ele, e eu pude sentir a conversa acontecendo entre os dois através do elo mental. Meu pai parecia decidido; minha mãe, hesitante. Aquilo claramente me deixava nervosa.
— Vão falar hoje ou vão esperar que eu tenha um infarto de curiosidade primeiro?
Meu pai suspirou.
— A família de Alaric quer marcar um encontro informal antes da união de vocês.
Eu já esperava por isso, mas nem consegui fingir satisfação como antes.
— Claro, pai.
Os dois continuaram trocando olhares.
— Tem mais alguma coisa?
Como se aquilo já não fosse ruim o suficiente.
Minha mãe respirou fundo antes de falar:
— Eles terão um curandeiro para se certificar da sua pureza, filha.
Então entendi o motivo dos olhares estranhos que os dois trocaram o dia inteiro.
— Isso é ridículo.
— Olha como fala! Esqueceu os modos e agora também fala como os alfas?
— Desculpe, pai.
Baixei o olhar, como uma filha deve fazer diante do pai. Mesmo assim, uma lágrima escapou.
— Não chore, filha — ele disse, suavizando a voz. — Eu sei que você é tão pura quanto quando saiu daqui. Nunca nos envergonharia assim. Mas passou muito tempo longe dos nossos costumes. É natural que eles queiram o melhor par para o filho.
Levantei o olhar.
— Ele também fará um teste para provar que é limpo e puro?
Nem vi o tapa chegando.
Senti o rosto virar para o lado, a bochecha ardendo, e o gosto de sangue invadir minha boca.
— Liliane! Onde está o seu respeito? O jantar é hoje à noite. Prepare-se.
Engoli o sangue e baixei a cabeça novamente, ficando em silêncio.
De que adiantaria reclamar?
Já tínhamos tido aquela mesma conversa muitas vezes antes de eu partir com Artemísia. Pelo menos, naquela época, consegui ganhar um pouco de tempo.
À noite, chegamos à casa da família que, teoricamente, seria minha nova família.
Uma mulher elegantemente vestida nos recebeu com um sorriso cordial.
— Olá, entrem, por favor.
A casa era confortável, com dois andares e uma decoração elegante. Ainda assim, não chegava aos pés das residências ligadas à Luna Artemísia.
Atrás dela, vi dois machos conversando.
— Deixe-me apresentar — disse ela. — Meu companheiro, Lisandro, e meu filho, Alaric.
Senti como se um caminhão tivesse passado por cima de mim.
Os machos cumprimentaram meu pai, minha mãe e minha irmã. Enquanto isso, eu só conseguia pensar em como iria me livrar daquela união.
Respirei fundo, tentando me recompor, e me sentei no canto indicado do sofá. Minha família ficou de um lado; a deles, do outro.
— Pela nossa família, a união poderia acontecer em uma semana. Tudo o que precisávamos acertar já foi resolvido.-Lisandro iniciou a conversa.
As palavras caíram como uma bomba.
Por um momento, achei que fosse desmaiar.
— Sim, claro — respondeu meu pai. — Já esperamos que ela terminasse a universidade. Inclusive, trabalhou em uma escola renomada na Alcadeia do Sul.
— Sendo assim, o curandeiro nos aguarda — disse minha futura sogra.
A maneira como falaram da minha virgindade, como se fosse um produto sendo avaliado naquela sala, me fez sentir vontade de vomitar.
Eu queria gritar que não. O quanto estava constrangida.
Mas provavelmente seria arrastada para fazer o exame de qualquer forma. Só tornaria a situação ainda mais vexatória.
Olhei para minha mãe e meu pai. De repente, ambos pareciam muito interessados em seus pratos.
Respirei fundo.
Continuei em silêncio e contei até dez antes de voltar a olhar para a comida no prato, que ainda não tinha tocado.
Graças à Deusa, Lia não abriu mais a boca. Me poupando de começar a chorar meu destino na frente de todos.
A conversa seguiu sobre negócios entre meu pai, Lisandro e Alaric. Percebi que ele trabalhava com o pai, que além de fabricante de tecidos também era o líder da cidade das ômegas.
Quando nos levantamos da mesa, até eles pareciam sentir o peso do silêncio constrangedor.
Meu pai então decidiu que já era hora de irmos embora.
Enquanto a mãe de Alaric se despedia da minha mãe, ele se aproximou de mim.
— Posso visitá-la amanhã?- Sua voz baixa e firme.
— Marquei de passar o dia fora com algumas amigas. Desculpe.
Menti rápido descaradamente.
Imediatamente todos olharam para mim.
— Vai desmarcar — disse meu pai com firmeza. — Seu noivo é mais importante que elas, não é, Liliane?
Droga.
— Claro. Eu já ia dizer isso, pai.
Cruzei um braço abaixo dos seios e, com a outra mão, fingi enrolar uma mecha de cabelo com despreocupação.
Alaric me observava.
— Não se preocupe — disse ele. — Não quero atrapalhar seu passeio.
Soltei uma pequena risada, mortificada.
— O senhor é muito atencioso. Obrigada.
Pela Deusa...agora preciso pensar em um jeito dele me detestar e romper esse contrato.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Laçando o supremo que me traiu.
A história é fascinante, parabéns ao autor(a). Ela nos vicia a querer saber mais....
Olá, gostaria de saber se já lançou mais algum capítulo além desses que estão aqui. E quando irão lançar?...