Artemísia
Em meu escritório, acerto os últimos detalhes da minha viagem após a cerimônia quando aquela dor de cabeça volta a me atacar. Desta vez, porém, é mais leve, assim como a náusea.
— Sei que sua fêmea está grávida, mas preciso de outro favor seu, Adrian.
Vejo-o esboçar um sorriso ladino.
— Farei como presente pela sua união. Além de pedir meus guerreiros, o que mais precisa?
Ele me olha com curiosidade.
— Claro que quero seus guerreiros aqui, pelo menos por este mês. — Não posso contar a verdade a ele, mas posso deixá-lo de sobreaviso. — Fique de olho em Aquiles. Ele não é de choramingar com ninguém, então esteja atento às necessidades dele.
Escuto o coração de Adrian acelerar. Ele sabe que, se estou dizendo isso, algo grande vai acontecer.
Ele bufa.
— De verdade que vai me sair com uma das suas? Sério?
Ele aperta os olhos, me encarando com intensidade.
— Você deveria ter quebrado minha perna naquele dia em que pedi. Estaria em casa com sua companheira agora.
— Você vai fugir, não é, Temi? Me diz é isso? Não pode destruir sua vida; nem a dele; assim. Se quiser desistir, diga agora. Felipe não merece ser abandonado no altar da deusa. A não ser que ele tenha te feito algo... Se foi isso, me diga que eu mesmo o destruo.
Levanto a mão para acalmá-lo em seu discurso.
— Não quero que destrua ninguém. E tampouco vou fugir da minha cerimônia. Fique tranquilo, mano.
Vejo o alívio surgir claramente em sua expressão.
— Então está bem. Se você não pretende fugir, com o resto eu consigo lidar.
Adrian se levanta e me envolve em um abraço apertado e reconfortante. Sei que, mesmo quando eu não estiver aqui, ele cumprirá sua palavra.
Logo depois, Gustavo b**e à porta. Reconheço que é ele pelo som característico.
— Posso entrar?
— Sim.
Ele entra carregando um estojo nas mãos. Seu olhar parece saudoso, triste na verdade.
— Primeiro, me desculpe por ter perdido a paciência aquele dia. Isso não é do meu feitio, e não voltará a acontecer.
— Sei que é difícil ver tudo mudar de uma hora para outra. Mas preciso que, acima de todos, você confie em mim. Que confie que faço o necessário por está alcatéia— Coloquei minha mão sobre a mesa para alcançar a dele. — Se não, quem vai me ajudar quando eu estiver para parir?
Ele arregala os olhos.
— Já está esperando?
— Ainda não. Mas pretendo tentar bastante nesta viagem.
Falo com um sorriso malicioso. Era a mais pura verdade. Nesta manhã, tive tanto prazer com Felipe que queria repetir várias vezes.
Gustavo abre um sorriso.
— Nem imagina o quanto fico feliz em ouvir isso.
Ele me entrega o estojo, e sei que ali estão as joias da Luna de Garras de Gelo, que deveriam ter sido entregues por minha avó falecida.
O conjunto é magnífico.
Uma coroa ornada com diamantes perfeitamente lapidados.
Um colar com os maiores diamantes que já vi, intercalando pedras grandes e pequenas.
Os brincos trazem um diamante negro translúcido rodeado por pequenos diamantes. A pulseira e o anel seguem o mesmo padrão.
Pego o anel e o observo de perto.
— Interessante... — digo, encantada.
— O diamante negro representa nossos lobos ferozes. Os brancos ao redor nos lembram por que devemos contê-los, Luna. Há a história dessas joias em um pergaminho na biblioteca, caso se interesse por conhecer um pouco da nossa origem.
— Ei... perdoar o quê? Você me criou como um verdadeiro pai. Eu jamais perdoaria se não tivesse vindo hoje.
Eles trocam um olhar silencioso.
— Filha, sente-se aqui — minha mãe diz, puxando minhas mãos e me levando até a cama. — Acho que agora você tem maturidade para entender que, às vezes, tomamos decisões com o que temos nas mãos.
Ela enxuga minhas lágrimas com carinho.
— Faltaram algumas partes naquela carta. Foi doloroso demais para mim e para Adam falar sobre isso. Mas, no dia em que seu pai me forçou... Adam chegou para me resgatar... e matou seu pai verdadeiro. Alguns dias depois, eu voltei àquela alcateia tomada pela raiva, humilhação, vergonha e... matei todos os machos que encontrei lá.
Pisquei uma, duas, três vezes, tentando assimilar a informação.
Vejo Adam se afastar discretamente.
Então era esse o peso que sempre pairou sobre eles.
— Eu teria feito o mesmo — respondo. — Na verdade, talvez tivesse feito bem pior. Mas sou grata por você ter me criado, apesar de tudo.
Vejo meu pai — o Alfa Supremo — chorar pela primeira vez em toda a minha vida.
— Meus filhos vão te chamar de avô. E terão orgulho de fazer parte da sua família. Eu amo vocês mais do que tudo no mundo.
Eu o abraço novamente, e minha mãe se junta a nós em um abraço triplo.
Depois, ela me ajuda a me arrumar, colocando cada joia enquanto observamos o reflexo no espelho.
Adam me entrega um presente: um prendedor de cabelo delicado em formato de flor, cravejado de diamantes. Faço questão de usá-lo na cerimônia.
Eles participariam apenas da primeira parte, com os anciões, e depois se retirariam.
Mesmo assim, eu já estava imensamente grata pela presença deles.
Olho meu reflexo no espelho.
A maquiagem leve completa o visual.
Então seguimos em direção ao salão de celebração da alcateia.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Laçando o supremo que me traiu.
A história é fascinante, parabéns ao autor(a). Ela nos vicia a querer saber mais....
Olá, gostaria de saber se já lançou mais algum capítulo além desses que estão aqui. E quando irão lançar?...