O ambiente foi entrando em foco aos poucos.
Primeiro foi a luz — branca, forte demais. Depois o cheiro, aquele cheiro específico de reagente e ar filtrado que eu já tinha aprendido a identificar sem precisar abrir os olhos. Depois o barulho suave de monitores, e a pressão de alguma coisa presa no meu braço.
Tentei me mover.
A cabeça protestou imediatamente com uma dor que partia da nuca e se espalhava para as têmporas, e minha primeira reação foi sentar e arrancar os cabos que me prendiam ao monitor.
— Hey. — A voz de Genevieve veio de algum lugar à minha esquerda antes que eu completasse o movimento. — Calma, vamos com calma aí. Você devia saber melhor do que eu que não pode sair arrancando isso.
Pisquei. O quarto foi ganhando contornos mais definidos. Cama de hospital, cortina bege, monitor cardíaco, soro no braço. Tudo muito familiar e muito errado para um domingo de tarde.
— Onde eu estou?
— No Sartori e Altieri.
— Eu caí?
— Caiu — Genevieve se inclinou um pouco para frente. — Caiu da escada na minha casa, do nada. Fiquei preocupada e trouxe você aqui direto. Geórgia está lá fora esperando notícias.
— Cadê o Arthur?
Ela mordeu o lábio.
— Bem... depois do que você descobriu, eu e a Geo não sabíamos se você queria que ele fosse avisado. Então resolvemos esperar você acordar para decidir. Achamos que era mais correto...
— Eu quero ver o Arthur agora.
— Tudo bem. Depois que você se acalmar e o médico permitir, eu...
— Arthur é médico. — Interrompi, com menos paciência do que devia ter naquele estado. — Deve estar no hospital. É só chamá-lo.
Genevieve respirou fundo.
— Zara. Por uma vez na vida, seja racional e espera o seu médico voltar, tá? Já apertei o botão para chamar.
Havia algo no tom dela que me fez engolir a próxima resposta antes de ela sair. Deitei de volta, olhei para o teto e fiquei contando as respirações enquanto esperava.
Alguns minutos depois, a porta se abriu.
O médico que entrou tinha uns cinquenta e poucos anos, postura profissional, e aquele jeito de quem já atendeu emergências suficientes para manter a calma em qualquer circunstância mas ainda não perdeu a capacidade de ser humano.
— Que susto para um domingo, hein? — disse, já com o estetoscópio na mão, se aproximando da cama. — Mas pode respirar. Tudo indica que você está bem.
Fez o exame clínico com aquela eficiência de quem faz aquilo há anos — verificou minhas pupilas com uma lanterna, testou reflexos, apertou minha mão e pediu que eu apertasse de volta, perguntou meu nome, a data, onde eu estava. Checou a pressão, a frequência cardíaca, foi anotando coisas no prontuário enquanto falava.
— Todos os exames possíveis foram feitos. Aparentemente você está bem. — Ele pausou, passando a mão levemente na lateral da minha cabeça, onde eu sentia um calor que provavelmente era um galo crescendo. — Como não foi possível fazer raios-x e tomografia, vou mantê-la aqui por mais algumas horas para monitorar. Só para garantir que não apareçam sintomas neurológicos. Dor de cabeça intensa, confusão, vômito persistente — se qualquer uma dessas coisas acontecer, me avisa imediatamente.
E saiu.
E eu fiquei ali, olhando para o teto do Sartori & Altieri enquanto a minha cabeça tentava assimilar uma informação que era grande demais e precisa de alguns segundos antes de começar a processá-la.
Grávida.
Eu estava grávida.
E de repente tudo começou a fazer sentido de um jeito que eu preferia que não fizesse. Os enjoos pela manhã que eu atribuí à bebida. As tonturas que vieram antes da queda, antes do casamento, antes de tudo. Os cheiros que de repente passaram a me incomodar sem motivo aparente. O cansaço que me fez querer ficar na cama por quinze dias — e que obviamente estava relacionado ao luto, mas não a só isso. Era mais. Muito mais. O corpo sabia antes da cabeça, como sempre sabe, como sempre avisa de formas que a gente não está preparada para ouvir.
No dia do casamento, quando acordei me sentindo horrível, inchada, enjoada — Geórgia tinha até brincado. Eu tinha descartado na mesma hora. Claro que tinha descartado. Tinha um casamento acontecendo, tinha um vestido errado, tinha toda uma vida mudando de direção ao mesmo tempo.
Eu jamais teria pensado em gravidez. Não com tudo que estava acontecendo ao redor.
Mas agora...
— Zara. — Em algum momento Genevieve tinha vindo até a beira da cama e segurado minha mão. Não sabia há quanto tempo estava ali. — Sou sua amiga, não sou?
— Claro que é — respondi, sem entender completamente por que ela estava perguntando aquilo agora, naquele momento em que eu estava à beira de um surto.
Ela me olhou por um segundo antes de falar.
— Então preciso que seja honesta comigo. Esse bebê... esse filho... é do Arthur?

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