Nos encaramos por um segundo a mais do que era necessário.
Genevieve piscou primeiro.
— Ah, Arthur só... me pediu para guardar.
— Isso não faz sentido. — Mantive a voz firme, mas sentia algo frio começando a se instalar no meu estômago. — Por que o Arthur ia te pedir para guardar o meu teste de parentesco com o Augusto?
— Sei lá, Zara... — Ela tentou dar um passo em direção ao cofre, claramente querendo guardar o envelope de volta. — Pergunta pra ele.
Me coloquei na frente.
— Me dá o envelope.
— O quê? Não, eu prometi...
— Gen. — Respirei fundo, tentando segurar o que estava começando a subir. — Não me obriga a arrancar isso da sua mão. Não vai ser bonito. Me dá o envelope.
Ela soltou o ar devagar, com aquela expressão de quem perdeu uma batalha que sabia que ia perder, e estendeu.
— Eu não abriria isso se fosse você — ela foi dizendo enquanto eu saía do closet em direção ao quarto, e ela me seguia de perto. — Arthur quis manter protegido, deve ter tido um motivo e...
Já estava puxando a folha para fora do envelope.
Li uma vez. Li de novo, mais devagar, como se meu cérebro precisasse de uma segunda passagem para aceitar o que meus olhos estavam vendo. Como se a letra impressa pudesse ter mudado entre a primeira e a segunda leitura.
Não tinha mudado.
— Negativo — sussurrei.
— O quê? — Geórgia, que até então estava fingindo examinar um dos vestidos com interesse que não existia, tirou os olhos do tecido e olhou para mim. — Isso não é possível.
— Não mesmo.
Ela foi até mim e pegou a folha da minha mão.
— Você deve estar lendo errado.
— Eu sei português, Geo. Sei "mediquês" também. Mas nem é necessário. — Apontei para a linha do resultado. — Está muito claro aí. O Augusto não era meu avô.
O silêncio que se instalou no quarto era do tipo que não pede para entrar.
— Mas isso não é possível — Geórgia repetiu, mais baixo dessa vez, sem a convicção da primeira. — Sua mãe é a mulher nas fotos do Augusto, a filha dele. São a mesma pessoa. A não ser que...
Me virei para ela.
— Que eu seja uma golpista? Que eu tenha inventado isso tudo? É isso que vocês estão achando?
Isso era fato. Isso estava na minha mão.
E eu precisava ouvi-lo explicar.
— Preciso falar com ele. — Saí do quarto em direção às escadas, andando mais rápido do que minhas pernas deviam estar preparadas para aguentar naquele estado. — Preciso falar com ele agora!
— Zara, espera! — Genevieve correu atrás de mim, descendo os degraus da escadaria de mármore para o primeiro andar. — Não vai atrás dele assim! — Ela me agarrou pelo braço nos últimos degraus. — Arthur vai ficar bravo comigo. Não era pra eu te deixar ver isso.
— Ele pediu pra você mentir pra mim? — Virei para ela, e devia ter alguma coisa no meu rosto porque ela recuou meio passo.
— Bem, não... quero dizer, sim... mas...
Arranquei o braço da mão dela e continuei descendo.
Foi então que aconteceu.
Uma tontura absurda me tomou do nada. O tipo de tontura que não te dá tempo de sentar ou de segurar em alguma coisa. Começou como um enjoo leve no estômago, subiu rápido demais pela garganta, e em meio segundo minha vista escureceu nas bordas. Depois no centro. O escada na minha frente sumiu antes que eu chegasse ao último degrau.
Meu corpo simplesmente esqueceu como funcionava.
Senti minhas pernas se cruzarem, o corrimão passando pela minha mão sem que eu conseguisse fechar os dedos em volta dele, e depois só o vazio — aquela fração de segundo em que o chão vem ao seu encontro e você já não pode fazer nada a respeito.
A última coisa que ouvi antes de apagar foi Genevieve gritando meu nome.

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