A noite tinha sido boa.
Não intensa, não de sexo. Não carinhosa como se fôssemos um casal apaixonado que tinha descoberto isso há muito tempo e estava confortável com aquilo. Mas tinha sido boa de um jeito que eu não sabia explicar ainda. O tipo de bom que acontece quando duas pessoas param de lutar e simplesmente... deixam acontecer.
Arthur tinha ficado no quarto. Eu não tinha deixado que fosse para o outro, e ele não tinha insistido em ir. Dividimos a cama com aquela distância respeitosa de início que foi diminuindo sozinha ao longo da noite, sem que nenhum dos dois tomasse a decisão de diminuí-la. Em algum momento eu tinha descansado a cabeça no peito dele. Em algum momento a mão dele tinha começado a acariciar os meus cabelos com aquela lentidão de quem não está pensando no gesto, só fazendo. Em algum momento eu tinha esquecido de todos os problemas e apagado, o que era um milagre considerando tudo.
Acordei de madrugada com a bexiga reclamando dos seus direitos.
Pisquei contra o escuro do quarto, ainda desorientada, e fui percebendo a situação aos poucos. A cama. A fazenda. O corpo do Arthur que eu tinha saído de cima em algum momento enquanto dormia.
E então ouvi as vozes.
Baixas demais. Alguém tentando não ser ouvido.
Abri os olhos vagarosamente. A antessala do quarto estava iluminada por aquela luz azulada específica de tela de computador, e Arthur estava sentado à escrivaninha de costas para mim, o notebook aberto na frente.
— ...pai da Zara — eu captei, num fragmento de frase que fez meu sono evaporar completamente.
— Eu sei que você quer protegê-la, Arthur. — A voz do outro lado era do Thomas, eu reconheci antes de ele terminar a frase. — Mas isso é muito para se meter sem ao menos ter certeza se...
— Eu sei. — Arthur interrompeu, ainda muito baixo. — Mas só faz isso, tá?
— Tudo bem. Estou reforçando a segurança de vocês aí na fazenda também. E para o casamento. — Uma pausa. — E você... bom, você sabe o que eu acho que deveria fazer.
— Achei que você gostasse da Zara.
— Arthur, eu adoro a Zara. — A voz do Thomas tinha aquela paciência de quem está dizendo algo pela milésima vez para alguém com dificuldade de entender. — Mas acho que a sua paixonite por ela está te cegando.
— Eu não tenho paixonite por ela.
— Então como explica estar sendo tão displicente com algo tão... simples? Só refaz o exame em um lugar de confiança.
Fiquei completamente imóvel.
O exame.
Ele estava mandando refazer o exame de parentesco. Depois de tudo que eu tinha contado, depois de ele ter me defendido para a polícia, depois do abraço e da noite dividida e dos cabelos acariciados no escuro — ele ainda tinha dúvida. Ainda achava que eu podia ser uma fraude.
Ou talvez não fosse bem isso. Talvez fosse exatamente o que o Thomas tinha dito: resguardar. Ter certeza. Fazer do jeito certo, porque era a natureza dele fazer do jeito certo.
Não sabia se aquilo me magoava ou se fazia sentido.
Então Arthur se levantou.
Seguiu em direção ao quarto e eu fechei os olhos de vez, regulando a respiração com o cuidado. Ouvi os passos no banheiro. O som da descarga. O som da torneira. O silêncio que veio depois.
Ele não voltou para a cama.
Fiquei esperando por mais um tempo que parecia longo antes de arriscar abrir os olhos de novo. Arthur estava parado na penteadeira, de costas para mim, olhando para algo que eu não conseguia ver do ângulo em que estava. Ficou assim por alguns segundos, imóvel.
Foi só quando ele se moveu ligeiramente que eu vi o que ele tinha na mão.
A minha escova de cabelo.
Ficou encarando o objeto por um momento, como se estivesse tendo uma conversa interna com ele mesmo. Aquele era o Arthur. Mesmo as decisões que deveriam ser impulsivas, mesmo os gestos que outras pessoas fariam sem pensar, nele passavam por análise.
Vi quando ele começou a separar os fios de cabelo que tinham ficado presos nas cerdas da escova. Devagar, com cuidado, enrolando-os nos dedos com uma atenção que não era casual.
Respirei fundo.
— Você não precisa fazer isso pelas minhas costas, Arthur.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: INVENTEI UM NAMORADO E ELE ERA MEU NOIVO BILIONÁRIO