~ ARTHUR ~
— Zara Altieri, vinte e um anos, estudante de Medicina da Santa Trindade, apreciadora de dança contemporânea e artes visuais. E atualmente está noiva.
Eu não consegui evitar o sorriso.
Porque, no instante em que ouvi Angélica anunciar aquilo ao salão inteiro, eu não vi a escadaria, as luzes ou o espetáculo cuidadosamente montado para apresentar aquelas garotas à elite carioca. Vi Zara dias antes, sentada torta no sofá do meu escritório, encarando a ficha do baile como se estivesse preenchendo um formulário da Receita Federal sob ameaça.
— Eu não tenho hobbies, Arthur. Isso é coisa de gente que tem tempo. Eu não tenho... não tinha... tempo.
Eu me lembrava com nitidez do jeito como ela tinha se corrigido no meio da frase. Como se ainda tropeçasse na própria vida nova.
— Impossível — eu tinha respondido, pegando a ficha da mão dela. — Você precisa fazer alguma coisa pra se divertir ou acaba surtando.
Ela cruzou os braços.
— Talvez eu já tenha surtado e ninguém tenha me avisado.
Eu ri.
— O que você gosta de fazer?
Zara deu de ombros.
— Coloco uma música alta e danço pela casa enquanto espano a mobília dos outros.
Eu me lembrava de ter rido de verdade.
— E também... eu já te vi colorindo aquelas revistinhas.
Ela levantou o rosto na mesma hora, ofendida.
— Bobbie Goods — corrigiu. — E não é por hobby. Ajuda a treinar a precisão das minhas mãos. Caso um dia eu venha a ser cirurgiã.
— Quantas pessoas já acreditaram nessa bobagem?
— A desculpa funciona melhor quando não estou contando pra outro médico.
Ela riu.
E o sorriso dela iluminou tudo.
Eu me perdi ali por um segundo antes de voltar ao que realmente importava.
— Ótimo. Então seus hobbies são dança contemporânea e artes visuais. Viu? Fácil.
Agora, no salão do baile, era exatamente isso que Angélica Lacerda estava anunciando para a sociedade carioca inteira.
Só que Zara não estava descendo a escada.
Ao meu lado, Genevieve continuava agarrada ao meu braço, ainda com aquele sorriso social impecável que agora começava a parecer duro nas bordas.
Baixei a voz.
— O que aconteceu? Cadê ela?
Houve um silêncio perceptível no salão.
Angélica olhou discretamente para os bastidores, mas manteve o sorriso.
— Zara? — insistiu ela ao microfone. — Zara Altieri?
Nada.
Nenhum vestido vermelho apareceu no alto da escadaria. Nenhum sinal.
A música hesitou por um instante antes de Angélica fazer o que toda gente daquele mundo fazia diante de um desastre social: fingir elegância.
— Provavelmente tivemos um pequeno imprevisto com a senhorita Zara. Vamos dar início à valsa.
A banda começou a tocar.
Eu dei um passo à frente.
Genevieve apertou meu braço com mais força.
— Dança.
Virei o rosto para ela.
Concentrei melhor o passo. Genevieve estava certa em um ponto: se ela estava fazendo aquilo como favor para a Zara, eu não podia abandoná-la no meio da pista e transformar um constrangimento em humilhação pública.
E se Zara estava bem...
Ela tinha dito que Zara estava bem, não tinha?
— Por que a viúva Mattias? — perguntei, mais baixo.
Genevieve olhou para a frente.
— Porque a viúva Mattias é uma cobra com colar de pérolas. E porque resolveu falar da mãe dela.
Respirei fundo.
— Foi muito ruim?
Genevieve demorou um segundo para responder.
— O suficiente.
Olhei em volta.
Foi aí que entendi.
O salão já não estava prestando atenção na dança. Não de verdade. A música seguia. Os pares se moviam. As luzes continuavam bonitas. Mas a corrente subterrânea de fofoca já tinha mudado de direção. O pequeno atraso na escada. O desaparecimento da nova Altieri. A movimentação da organização. A ausência óbvia da garota que devia estar roubando a cena.
— Sobre anunciar o casamento de vocês ainda hoje... — Genevieve começou, sentindo que eu tinha chegado à mesma conclusão. — Olha em volta.
Eu entendi na hora.
O anúncio do noivado tinha morrido antes de nascer.
— A história já está se espalhando — ela completou. — Não adianta você querer marcar o evento com esse anúncio quando, na verdade, tudo sobre o que vão falar amanhã é sobre...
— É sobre como aquela garota agrediu uma senhora distinta no banheiro de forma gratuita.
Mas a voz não era da Genevieve.
Era da minha mãe.

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