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INVENTEI UM NAMORADO E ELE ERA MEU NOIVO BILIONÁRIO romance Capítulo 36

Saí da prova com a sensação muito clara de que tinha ido mal.

Mal do tipo em que você lê a pergunta, reconhece o assunto, sabe que estudou aquilo, mas a cabeça está tão ocupada em não surtar que as palavras chegam até você como se tivessem que atravessar uma parede antes. Eu tinha feito tudo no automático, com a concentração de uma pessoa tentando resolver uma prova enquanto o resto da vida desabava barulhentamente em segundo plano.

E ir mal tinha consequências.

Eu não podia me dar ao luxo de ir mal.

Nem quando eu era a favelada tentando cavar meu lugar, nem agora, carregando o sobrenome Altieri (mesmo que ninguém ali ainda soubesse) e precisando provar, para os outros e para mim mesma, que tinha entrado no Programa Sartori & Altieri de Excelência Clínica por mérito, não por sobrenome, noivado ou pena de um herdeiro bilionário com complexo de salvador.

Saí do campus e fui direto para o que eu já tinha decidido chamar de primeira sessão oficial de tortura: o treinamento para o baile de debutantes.

Cheguei atrasada.

Tinha decidido, apesar de toda a experiência gloriosa da manhã, que ainda era uma boa ideia ir de ônibus. Afinal, eu já tinha sido ameaçada por um agiota na porta da faculdade, perdido um anel de noivado caríssimo e provavelmente ido mal numa prova importante. O que mais poderia dar errado, não é?

A resposta, aparentemente, era: salto de prática, postura e humilhação social em grupo.

O salão onde estava acontecendo o ensaio ficava num clube absurdamente elegante. Assim que empurrei a porta de vidro, ouvi a voz da instrutora antes mesmo de vê-la direito.

— A senhorita Zara, imagino.

Ela vinha na minha direção com a dureza impecável de quem provavelmente tinha nascido mandando em meninas ricas com debut. Alta, magra, coque preso tão apertado que devia impedir até pensamento fraco, uma prancheta nas mãos e uma expressão de profundo desagrado com a minha existência.

— Desculpa o atraso — falei, ajustando a bolsa no ombro.

— Atraso, senhorita, já é uma forma de apresentação. E a sua foi péssima.

Ótimo. Eu tinha acabado de chegar e já estava em desvantagem até no quesito “olá”.

Corri os olhos pelo salão procurando qualquer ponto minimamente menos hostil e encontrei Genevieve sentada mais ao fundo.

— Eu tenho um dom raro — murmurei, sentando ao lado de Genevieve — Sempre consigo chegar nos lugares chamando atenção.

Genevieve sorriu de lado.

— Pelo bem ou pelo mal, você nunca passa despercebida.

Próxima a nós, ouvi uma voz enjoada que eu reconheceria em qualquer lugar.

Bárbara.

— O que ela está fazendo aqui? — ela perguntou para Alícia.

— Talvez tenha vindo limpar o chão.

As duas riram.

Genevieve ficou séria por meio segundo antes de voltar para mim.

— Espera. Não foi a mãe da Alícia quem te convidou?

— Foi — dei de ombros. — Mas a Alícia vai morrer negando que eu sou uma Altieri enquanto puder.

Genevieve franziu levemente a testa.

— Mas você podia acabar com isso em dois segundos. Basta uma olhada no seu anel e...

Ela parou.

Olhou para a minha mão.

Piscou.

— Espera. Cadê seu anel?

Meu coração acelerou feio, mas meu rosto ficou surpreendentemente firme.

— Ah, bem... tirei no banho e acabei esquecendo de colocar.

Genevieve arregalou os olhos.

— Você realmente é fora do comum. Como alguém esquece de colocar um anel daqueles? Eu morreria por um.

Senti uma pontinha de ciúme ridícula escapar antes que eu pudesse impedir.

— Bom... Arthur deve conhecer muito bem o seu gosto, não é?

Genevieve virou o rosto para mim.

— O Arthur... o quê...?

Ela parou no meio da frase. A expressão mudou. Não para culpa, exatamente. Mais para compreensão.

— Você ouviu falar — ela respirou fundo, se ajeitando para dizer alguma coisa — Escuta, não é bem assim...

— Senhoritas — a voz da instrutora cortou o ar do salão. — Talvez vocês queiram se lembrar de que não estão aqui para conversar.

Silêncio instantâneo.

A mulher foi até o centro do salão com a prancheta no peito e um olhar determinado.

— Vamos repassar alguns pontos hoje, visto que temos uma nova debutante se juntando ao grupo.

O grupo inteiro olhou para mim.

— Tudo bem — repeti, dando de ombros. — Quero dizer, você sabe que eu não tenho sentimentos por ele. É só um contrato. Então, se vocês ainda se gostam...

— Céus, não. — Genevieve me interrompeu rápido. — Não tem nada disso. Somos amigos e...

— Ótimo — eu disse, cortando de volta. — E nós somos amigas também. Então... tudo bem. Seu motorista está esperando.

Genevieve olhou para o carro. Depois para mim. Sorriu de um jeito discreto, ainda sem saber muito bem se acreditava no que eu tinha dito, mas entendendo que a conversa tinha acabado ali.

— A gente se fala.

Ela foi na direção do carro.

Eu estava prestes a me virar também quando dei de cara com Alícia.

— Céus — falei. — Você é tipo uma assombração? Sempre no meu encalço.

Alícia nem piscou.

— Problemas na amizade?

— Não é da sua conta.

— Ela pode fazer a superada, mas é completamente apaixonada pelo Arthur ainda, sabia? — disse Alícia, cruzando os braços. — É por isso que não larga o osso. Se faz de amiguinha, mas pula na cama dele em dois segundos se ele estalar os dedos. É o que falam.

— Pois falam demais.

— Falam, falam mesmo. Inclusive falam que seu noivinho é muito bom de cama. Quero dizer... metade do nosso círculo já provou, então devem ter um ponto.

Respirei fundo tentando conter a irritação e tentei sair. Mas ela continuou.

— Você devia se acostumar com isso, sabe? A ser corna. Porque você pode até achar que vai subir de vida quando anunciarem esse noivado, mas, na verdade, as garotas que ele pega só vão estar rindo de você pelas costas.

— Pena que você claramente queria ser uma delas, mas não é. Não é, Alícia?

Ela sorriu, venenosa.

— Eu me dou ao respeito.

— É claro que se dá. Dormindo com o Gustavo? — Mudei o tom para ironia — Certamente é o tipo de escolha que sua mãe aprovaria.

O rosto dela endureceu na hora.

— Você acha engraçado? Pois vamos ver quem ri por último.

Então foi embora.

E me deixou ali, parada, com um gosto azedo na garganta de quem tinha levado um golpe exatamente onde doía.

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