Havia algo de estranho no quarto.
Não era exatamente como se eu soubesse o que era, mas sim uma percepção que chegou antes do pensamento, antes de qualquer coisa que pudesse ser chamada de consciência de verdade. Uma presença. Um cheiro familiar que não deveria estar ali — aquele perfume que eu reconhecia de dias passados em uma casa elegante bebendo drinks à beira de uma piscina enquanto achava que estava fazendo amizade de verdade.
Tentei abrir os olhos. Estavam pesados demais, como se as pálpebras tivessem sido substituídas por algo mais denso que simplesmente não cooperava com os pedidos que eu fazia.
— Genevieve? — O nome saiu distorcido, a língua não cooperando completamente com o que o cérebro estava pedindo.
Forcei os olhos a abrirem. O quarto chegou borrado primeiro, as formas sem nitidez, a luz do teto um borrão branco no centro do campo visual, as paredes sem definição clara. E no meio de tudo aquilo, uma forma que eu reconhecia mesmo sem nitidez. Cabelo perfeito, postura elegante, aquela presença específica que eu tinha aprendido a associar com segurança e que agora, com o que restava de clareza no meu sistema, estava produzindo outra coisa.
Minha mente começou a trabalhar devagar, com aquela lentidão de quando você está saindo de sedação e o cérebro processa as coisas em sequência em vez de ao mesmo tempo, como se houvesse uma fila e cada pensamento tivesse que esperar sua vez. Genevieve. Genevieve estava ali. Minha amiga veio me visitar.
Mas espera. Genevieve não era minha amiga. Tinha algo importante sobre isso que eu precisava lembrar. Algo que tinha acontecido... ah, sim. Genevieve beijando o Arthur. Ela tinha beijado o Arthur num restaurante e eu tinha visto.
Mas isso já tinha sido explicado, não tinha? O Arthur tinha dito que ela o beijou, não o contrário. Que ele estava chocado. Que ele me amava.
Por que eu estava tão confusa?
Tinha sido dopada novamente. Por isso. Estava num hospital. Estava nervosa porque...
— Arthur!
O grito saiu antes que eu decidisse gritar, o nome escapando com toda a urgência que o corpo conseguia produzir naquele estado, que não era muita, mas foi o suficiente para fazer o quarto inteiro parecer mais real por um segundo.
Genevieve deu uma risadinha.
Senti a mão dela me empurrando de volta contra o colchão com uma firmeza. Não que ela precisasse de força porque meu corpo já estava fazendo a maior parte do trabalho contra mim... mole, pesado, protestando contra cada tentativa que eu fazia de me mover.
— Você realmente se importa com ele, não se importa?
Olhei para ela. Incapaz de formular uma resposta. A mente funcionava, mas a língua não seguia no mesmo ritmo, e a distância entre o pensamento e a fala parecia quilométrica.
Uma injeção.
Ela tinha uma injeção na mão.
E tinha vindo ao meu quarto vestindo jaleco de enfermeira, com as câmeras desligadas, com a ajuda de alguém dentro do hospital.
Ela tinha vindo me matar.
A compreensão chegou completa e de uma vez, sem a progressão gradual que seria mais gentil. Foi um clique, e de repente eu sabia tudo que precisava saber sobre aquele momento e sobre tudo que tinha levado até ele. Cada peça se encaixando de uma vez no lugar que sempre tinha sido seu.
Tentei reagir. Tentei me mover, empurrar, fazer qualquer coisa física que impedisse o que estava prestes a acontecer. Mas o corpo não respondia com a urgência que o medo exigia — era como tentar correr dentro d'água, cada movimento chegando com meio segundo de atraso e metade da força que eu precisava.
— Tudo bem, Zara, vai ser rápido e indolor. — Ela fez uma pausa dramática antes de acrescentar: — Tá, tudo bem, não tenho como ter certeza de que vai ser indolor. Não entendo de medicação. E também... não é como se eu já tivesse morrido antes para poder te dizer como é.
Deu um pequeno risinho, achando graça da própria piada e partiu para cima de mim com tudo.

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