~ ARTHUR ~
Comecei a me mover em direção ao meu carro, talvez mais pela força do hábito.
— Quem dita o ritmo do plantão aqui sou eu, pegou a visão? — Marreta disse, deixando claro que era eu quem deveria segui-lo e o meu carro não era o destino.
Fiz um gesto concordando. Não era o momento de discutir hierarquia.
Saímos da garagem, atravessamos a saída do condomínio — o porteiro nos viu passar e olhou para outro lado de uma forma bem suspeita —, e seguimos por algumas ruas até um beco. Onde havia uma moto.
— Você só pode estar brincando.
Marreta já estava subindo nela.
Fiquei parado por um segundo a mais do que deveria. Olhei para a moto, olhei para ele, olhei para a rua, fiz as contas do que as minhas opções eram naquele momento.
— Vai ficar aí moscando?
Suspirei e subi na garupa.
Capacete, claro, não havia nenhum. Nem para mim, nem para ele. Fiquei um segundo me perguntando se o Marreta tinha algum tipo de preocupação com ser parado por infração de trânsito, sendo que ser parado por um policial e acabar preso por razões muito maiores do que falta de capacete era, objetivamente, o pior cenário possível para um traficante de alto escalão em circulação. A resposta chegou quando ele acelerou.
Ele não estava se importando com regras, fossem elas quais fossem.
Fomos a toda velocidade por boa parte do caminho... Ruas que eu não conseguia identificar, curvas que eu sentia mais do que via, o barulho do motor enchendo tudo ao redor de um jeito que tornava qualquer pensamento organizado basicamente impossível. Eu me agarrava ao selim com uma mão e segurava a maleta com a outra, tentando manter as duas coisas ao mesmo tempo enquanto o vento batia no rosto com força.
Por um lado, era bom. Eu queria chegar logo até a Zara, queria que cada segundo contasse, queria que a progesterona chegasse antes que o sangramento piorasse além do que eu podia tratar sem equipamento. Por outro, eu esperava chegar vivo até ela, o que parecia uma expectativa razoável, mas que a velocidade do Marreta tornava cada vez menos garantida a cada curva que ele fazia sem reduzir.
Quando ele finalmente freou, meu coração ainda estava alguns segundos atrás.
— Desce.
Olhei ao redor. Não estávamos no morro. Estávamos numa rua que eu não reconhecia, num ponto que não fazia sentido como destino.
— O que? Eu não vou descer antes de chegar até a Zara e...
— DESCE, PORRA!
Desci. Ele também desceu. E então tirou do bolso do moletom uma espécie de máscara de tecido grosso, escuro, do tipo que cobre completamente o rosto deixando apenas uma abertura pequena na altura do nariz para respirar.
— Coloca.
Olhei para aquilo.
Havia uma lista de coisas que eu não imaginava fazer voluntariamente na minha vida, e vestir uma máscara que me impedia de ver e de falar enquanto estava diante de um traficante numa rua desconhecida de madrugada estava bem no topo dessa lista. Mas havia também a Zara, sangrando, esperando por mim em algum lugar que eu não sabia onde, com um bebê que corria risco a cada hora que passava.
Aquilo era o único caminho até ela.
Quando o carro parou, fui agarrado pelo braço antes que pudesse me mover por conta própria e puxado para fora. Então, fui empurrado pelo ombro por alguns metros, até meus joelhos caírem contra um chão duro quando alguém me forçou para baixo sem aviso prévio.
— Tá aí o seu médico.
Depois o som de uma porta batendo atrás de mim, pesada, e uma chave girando com aquele clique definitivo.
Silêncio.
Então, de algum lugar próximo — mais próximo do que eu esperava:
— Arthur?
A voz era fraca. Mais fraca do que eu queria que fosse. Mas era ela.
— Zara?
Então a máscara foi puxada com uma rapidez que me fez piscar contra a luz fraca do quarto.
Ela estava ajoelhada na minha frente. Mais pálida do que eu esperava, com aquelas olheiras de quem não dormia direito havia dias, e uma expressão de quem está com dor mas está tentando não deixar aparecer o quanto. Eu reconhecia aquela expressão de anos de atendimento pediátrico, onde os pacientes também tentavam ser mais corajosos do que a situação permitia.
Ela me olhou de cima a baixo. Parou no rosto, onde o Marreta tinha me acertado e onde eu provavelmente estava com a marca ainda visível.
— Que merda você fez?

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