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INVENTEI UM NAMORADO E ELE ERA MEU NOIVO BILIONÁRIO romance Capítulo 118

A porta se abriu com uma violência que fez o caixilho tremer.

Alícia se encolheu mais, com aquela expressão de quem está tentando ocupar o mínimo de espaço possível. Eu me levantei devagar, com uma calma que não era natural, mas que precisava parecer, e fiquei de pé encarando o homem parado na entrada.

Ele estava mais velho do que eu lembrava. Ou talvez eu tivesse simplesmente parado de lembrar direito, ao longo de todos esses anos tentando não pensar nele. O mesmo porte físico — largo, sólido, do tipo que preenche uma porta —, mas com aquelas linhas no rosto que não são do tempo, mas do tipo de vida que ele levava. Tensão constante. Decisões pesadas. O custo específico de estar sempre um passo à frente de quem quer te matar.

— Oi, pai.

— Pai? Pai? — ouvi Alícia murmurando atrás de mim, a voz quase sem som. — Mas o quê...?

— Já mandei não me chamar assim — ele retrucou, a mandíbula travando.

— Oi... Marreta. — Deixei o desdém escorrer pelo apelido, lento. — Dá pra me explicar o que estou fazendo aqui?

Ele entrou. Fechou a porta. Antes que eu pudesse recuar, me segurou pelo braço com uma força que não precisava para provar nada e me jogou contra a cama.

— Não é porque tu é quem é que vai vir cheia de marra pra cima de mim, valeu?

Fiquei quieta. Massageei o braço devagar, sem tirar os olhos dele. Havia uma versão de mim que queria explodir, que queria revidar, que tinha passado anos alimentando uma raiva sobre esse homem e o que ele representava na minha vida. Mas eu era mais esperta do que isso agora. Deixei o silêncio trabalhar, e ele preencheu.

— Ouvi dizer que tu tá prenha. Precisa de alguma coisa?

Pisquei confusa.

— Do que eu precisaria?

— Coisa de mulherzinha, sei lá. Vitamina. Essas parada aí.

Havia algo perturbadoramente absurdo em estar num quarto de cativeiro, sequestrada pelo próprio pai, recebendo uma oferta de vitaminas pré-natais. Engoli aquilo em silêncio.

— Isso depende de quanto tempo você pretende me manter aqui — pausa. — Por que estou aqui?

— Tu tá aqui pra ficar protegida. Porque tu tem meu sangue e sangue a gente protege.

— Protegida de quê?

— Tô falando da confusão que tu se meteu por causa do dinheiro da Heleninha.

Parei.

Heleninha. Dito assim, com aquela familiaridade possessiva, me fazia sentir um nó no estômago.

Mas o ponto era outro. Ele estava falando da herança. Da fortuna que o Augusto tinha deixado para mim — que pertencia à minha mãe antes, que era o dinheiro da família dela. E ele sabia. Sabia rápido demais para que isso fosse acaso, o que significava que alguém tinha chegado até ele com essa informação antes que eu sequer tivesse saído daquele escritório de advogado. Alguém tinha mapeado minha vida, minha herança, minha situação, e levado tudo isso até ele de bandeja.

E ele estava falando em confusão, como se eu tivesse me metido em algo por vontade própria, quando a única coisa que eu tinha feito foi me sentar em uma cadeira de couro em um escritório caro e ouvir a vontade de um homem que eu amava ser lida em voz alta. Quem tinha transformado aquilo em guerra tinha sido a Leonora, não eu.

Mas não podia fazer essas perguntas. Eu conhecia pouco o meu pai, mas era o suficiente para saber que ele não gostava de ser contestado e via perguntas em excesso como sinal de desafio. O que eu precisava era focar nas perguntas certas, no momento certo, e esperar.

Marreta riu. Um som curto, sem humor.

— Tu sabe como as coisas funcionam aqui.

Eu sabia. Sabia que Alícia tinha visto rostos que não deveria ter visto, e que no mundo em que meu pai operava, testemunha era uma palavra que tinha prazo de validade muito curto. Eu também tinha visto. Mas eu era filha dele. Ele acreditava, com aquela lógica dos homens que nunca admitem fraqueza mas guardam lealdade de sangue como se fosse lei da natureza, que eu jamais o denunciaria. E não denunciaria, não porque não fosse capaz ou porque o amasse, mas porque não era burra o suficiente para precisar de mais essa confusão numa vida que já estava cheia delas.

Mas Alícia era outra história. Alícia era uma desconhecida, uma variável sem valor nenhum, e eu sabia exatamente o que acontecia com variáveis sem valor nenhum no mundo do Marreta.

— Você não vai fazer nada com a minha amiga. — Deixei a voz sair desafiadora de um jeito que custou mais do que eu queria admitir.

— Ela viu rostos.

— Eu também vi.

— Você é minha filha.

— Mas não vou ter o menor problema em te denunciar se você matá-la e me deixar sair viva daqui. — Fiz uma pausa, sustentando o olhar. — É como você disse. Duas por uma. Uma promoção.

Ele me encarou com aquela ferocidade calma de quem está acostumado a ser o mais perigoso do ambiente e não precisa elevar a voz para provar isso.

— Ótimo. Então talvez nenhuma das duas saia viva.

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