~ ARTHUR ~
Desta vez a risada foi mais aberta.
Não a risadinha irônica de antes. Foi uma gargalhada genuína, daquelas que saem quando uma situação ultrapassa um nível que o corpo consegue levar a sério.
— Você só pode estar louca — disse para minha mãe. — Completamente.
— Eu avisei — Leonora comentou, soando muito pouco interessada no drama familiar que se desdobrava diante dela.
— Arthur, meu filho. — Claire deu um passo para dentro do quarto com aquela urgência contida de quem está tentando alcançar alguém antes que tome uma decisão ruim. — Seja racional por um instante. Você está acabando com a sua vida por causa de uma garota que pode não ser nada além de uma golpista.
— Ela não é.
— Se ela não fosse, você não precisaria alterar um teste de parentesco, precisaria? — Leonora interveio, com aquele tom de quem está apenas apontando o óbvio.
E naquele momento tive um clique.
Ficou ali, na minha cabeça, por um segundo inteiro antes de eu processar completamente o que aquele clique significava — e quando processou, tudo ao redor perdeu o foco por um instante.
E se não foi erro de laboratório? E se não foi contaminação de amostras? Eu tinha assumido, desde o começo, que o exame original tinha dado negativo por algum problema técnico — porque a alternativa, que a Zara realmente não fosse neta do Augusto, era uma que eu não estava pronto para aceitar sem mais evidências. Mas havia uma terceira possibilidade que eu tinha ignorado completamente, provavelmente porque exigia que eu encarasse algo que tornava tudo mais complicado do que já era.
E se o exame original tivesse sido manipulado antes de mim? Por outra pessoa, com outro objetivo, muito antes de eu entrar naquele laboratório?
— E você não precisaria falsificar esse exame para começo de conversa, precisaria? — falei, olhando diretamente para Leonora.
Ela fez uma cara de ofendida que era performática demais para ser verdade.
— Se vai me acusar, é melhor ter provas.
— Há quanto tempo você estava no Brasil? — Não esperei resposta. — Você não chegou exclusivamente para o meu casamento, chegou?
— Isso não vem ao caso.
— Claro que vem. Se você vai vir com tudo para cima de mim, saiba que o contra-ataque não vai ser leve.
— Pois tente. Você vai descobrir que a vida não é tão fácil assim quando não se tem dinheiro para nada. Já sabe onde vai morar? Como vai comer? Deveria se preocupar com essas coisas primeiro — ela fez uma pausa calculada. — Mas olhe pelo lado positivo, você vai estar ao lado da sua esposa. Se ela não te abandonar na primeira oportunidade de fisgar outro rico burro o suficiente para cair na lábia dela.
— Cala a boca.
— Cala a boca você e pensa por um segundo! — Minha mãe quase berrou, e havia naquele tom uma urgência real que eu raramente via vindo dela. — Seu pai não vai poder te salvar se o que Leonora está dizendo, sobre você ter modificado o exame, for verdade.
— Não vai, vai? — Virei para Leonora. — E se, supostamente, eu tivesse feito isso... — jogo a verdade no ar como uma hipótese, só pra saber até onde ela iria. — Qual é a sua proposta? Eu me separo da Zara e...?
— Você se divorcia da garota — ela abriu as mãos como se estivesse apresentando algo simples — e fazemos um novo exame, que vai dar negativo, naturalmente.
— Naturalmente... — repito, tentando conter a ironia.
— Você fica ao meu lado com relação ao testamento — ela continua como se não tivesse sido interrompida. — E eu deixo você ficar com a mansão, não tenho a menor intenção de morar no Brasil.
Tirei o documento do bolso da calça e entreguei a ele. Ele leu em silêncio, rápido, com aquela eficiência de quem passou a vida assinando papéis e sabe distinguir o que importa numa primeira leitura.
— Ela não fez isso — disse, em voz baixa.
— É, ela fez.
Ele ficou parado por um segundo, olhando para o papel. Depois guardou no bolso do próprio paletó — um gesto que eu interpretei como o de quem está guardando uma prova —, abriu a carteira e tirou o próprio cartão de crédito.
— Vai precisar disso.
— Não posso aceitar. — Desviei o olhar do cartão. — Se ela achar que você está ligado às coisas das quais está me acusando, vai se voltar contra você também. E o hospital precisa de você lá mais do que nunca agora. Não posso te colocar nessa posição.
Ele ficou me olhando por um momento. Depois recolheu o cartão, abriu a carteira de novo e tirou algumas notas — as que tinha em espécie — e estendeu para mim.
— Sem rastreio.
Respirei fundo.
Me senti um tanto humilhado em pegar dinheiro do meu pai. Eu não fazia isso desde que ganhava mesada quando criança, e mesmo assim compensava com algum serviço — limpar o jardim, lavar o carro, qualquer coisa que fizesse aquilo parecer uma troca justa. Aquilo agora não era troca. Era humilhação com afeto, que de alguma forma era pior.
Mas aceitei. Porque a alternativa era pior ainda.
— Não vai ficar assim. — Falei mais para mim mesmo do que para ele, mas olhei nos olhos do meu pai quando disse. — Vou recuperar tudo. E vou me vingar daquela interesseira.

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