~ ARTHUR ~
— Não ainda — disse, com uma frieza que não precisei forçar.
— Escuta aqui, Arthur. — Angélica se plantou na minha frente com aquela postura de mulher que não estava acostumada a ser ignorada. — Eu tenho um respeito enorme por você e sua família, mas a minha filha está lá fora, sabe-se lá onde, com sabe-se lá quem. E ficar aqui parada é algo que eu não pretendo fazer.
— E quem disse que eu pretendo? — Me levantei e fui em direção ao carro. — Você vai voltar para casa e vai esperar as minhas instruções. Eu cuido disso.
— E por que eu iria te obedecer?
Parei. Me virei.
— Porque o pai da Zara é uma pessoa perigosa. — Mantive a voz baixa, mas ela entendeu o peso. — Se a sua filha está com ele, ou pior, com os inimigos dele, você não vai querer colocar a polícia no meio. Entendeu? Volta para casa. Qualquer contato que tentem com você ou com sua família, você me avisa. Imediatamente.
Angélica confirmou com a cabeça, mas era visível o quanto aquilo custava — uma mãe sendo mandada para casa enquanto a filha estava desaparecida era o tipo de coisa que nenhuma lógica conseguia tornar suportável de verdade.
— Eu vou trazê-las de volta. — Falei antes de entrar no carro. — Só não faça nenhuma besteira e tudo vai ficar bem.
Não fiquei para ver a expressão dela.
Fui direto ao hospital. Direto à sala do Thomas.
No caminho, tentei organizar o que sabia em alguma ordem que fizesse sentido. A Zara tinha saído do restaurante desesperada, tinha esbarrado na Alícia por acaso, e as duas tinham ido parar num beco onde foram interceptadas por dois homens. Não havia indicação de resistência longa nas imagens — o que sugeria que elas foram imobilizadas rápido, com eficiência, por pessoas que sabiam o que estavam fazendo. Isso não era oportunismo. Tinha sido algo planejado.
Alguém sabia que a Zara estaria ali. Naquele restaurante, naquele horário.
Aquele pensamento ficou comigo durante todo o caminho.
Thomas estava terminando um atendimento quando cheguei, e eu fiquei do lado de fora andando de um lado para o outro com aquela contenção forçada de quem está tentando não explodir no corredor de um hospital. Thomas viu minha expressão pela janela da porta e encurtou o atendimento — entregou a receita, deu as últimas instruções com a eficiência de quem sabe que há urgência do lado de fora, e mal o paciente saiu eu já estava ocupando a cadeira à sua frente.
— Zara foi sequestrada.
— O quê? — Ele me olhou como se não tivesse entendido o idioma. — Zara... o quê? Por quê? Por quem?
— Não faço ideia. E a Alícia Lacerda também.
— Arthur... o quê?
— Preciso da sua ajuda. Isso não pode sair daqui. Não podemos envolver a polícia, e você sabe muito bem o motivo.
Ele ficou me olhando por um segundo enquanto processava.
— Você acha que tem relação com os inimigos do pai dela.
— Espero que não. Ou... — A frase não terminou porque não tinha como terminar de um jeito que eu conseguisse dizer em voz alta. O que saiu foi um grito de frustração enquanto eu socava a mesa com força suficiente para uma das pernas ceder com um estalo.
Thomas não se mexeu.
— Não posso perdê-la. — A voz saiu diferente, sem a contenção que eu normalmente mantinha. — Thomas, não posso perdê-la. Nem ela e nem meu filho.
Fui para casa. Não conseguiria trabalhar e fingir normalidade, e não havia nada mais que eu pudesse fazer até ter as informações que o Thomas fosse levantar. A espera era o pior tipo de ação possível para mim, mas era o que havia disponível no momento.
Quando cheguei, a Dona Carmem tentou me avisar de alguma coisa antes mesmo de eu entrar.
— Doutor Arthur, tem algo que o senhor precisa...
— É sobre a Zara?
— Não, senhor, mas...
— Então pode aguardar.
Subi direto para o quarto, já pensando em para quem ligar primeiro, qual contato acionar, por onde começar a montar aquela equipe. Eu já tinha enviado algumas mensagens do carro, mas isso era sério demais para ser resolvido em pouco caracteres.
Abri a porta e parei repentinamente.
Duas malas grandes, minhas malas, estavam do lado porta. E Leonora, sentada na minha cama com se o lugar fosse dela de direito.
— Ah, ótimo. Você chegou cedo.
— O que significa isso? — Apontei para as malas, a voz saindo mais baixa do que eu pretendia porque eu já estava no limite de tudo que era capaz de segurar naquele dia.
— Significa que você está deixando a mansão — ela disse aquilo com a calma de quem está comunicando um fato consumado. — Agora. E espero não ter que chamar os seguranças para te tirarem daqui.

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