Tess levantou a cabeça devagar, um pouco rígida, e deu de cara com o olhar afiado de Abel.
Os olhos dos dois se encontraram no ar, e Abel logo percebeu o celular na mão dela.
“O que foi? Elas estão te ligando?”, perguntou com naturalidade, sem nenhum constrangimento.
Mesmo sem poder vê-lo, Lyra e Raven congelaram, sem saber o que dizer ou fazer.
Cozinhando? Abel?
As duas seguraram o riso mesmo tempo, tentando imaginar aquele homem confiante e despreocupado parado diante de um fogão.
Tess pigarreou e quebrou o silêncio. “Já vou.”
“O quê?” Abel não entendeu e deu um passo à frente, ainda segurando a espátula.
Tess esfregou a testa, sem jeito, e repetiu.
“Disse para você ir. Já vou comer.”
A voz provocadora de Lyra veio pelo telefone, com uma risada mal contida: “Estamos indo para casa, Tess. Já que o próprio senhor Shaw está cozinhando, é melhor se apressar.”
Abel pareceu satisfeito enquanto admirava a mulher a sua frente.
“Tá bom”, ela respondeu, com um leve sorriso.
Quando a ligação terminou, Abel fez um bico. “Ah, qual é. Eu cozinhei com as minhas próprias mãos. Você devia estar correndo para provar.”
Tess não conseguiu conter o riso diante do tom infantil dele, sentindo o clima estranho se dissipar.
“Tá, já estou indo.”
Ela o seguiu até a cozinha, pronta para ajudar a arrumar a mesa, mas parou ao ver a mesa de jantar já cheia de pratos, tudo bem organizado e soltando vapor.
Abel largou a espátula, desamarrou o avental com uma mão e arqueou a sobrancelha para ela. “Ajudar em quê? Só precisa sentar e comer.”
Tess piscou, surpresa, olhando para a quantidade de comida à frente.
Depois, os olhos dela percorreram Abel de cima a baixo por um instante.
Ela ainda não sabia de onde ele vinha de verdade, mas, cercado pela família Larson e sendo sobrinho de Finn, era evidente que vinha de uma família rica.
Como alguém assim sabe cozinhar?
Enquanto ainda pensava nisso, Abel se inclinou um pouco, abaixando a voz enquanto puxava o nó atrás das costas.
“Então… Eu apertei demais isso aqui. Acho que deu nó”, murmurou, lançando olhares de canto para ela. “Será que pode me ajudar?”
O tom subiu no final, claramente de propósito.
Tess estreitou os olhos.
Onde ele aprendeu isso? Ele está… Flertando.
“O que foi? Está desconfortável?”, Tess perguntou com doçura, inclinando a cabeça para observá-lo. Seu tom carregava uma falsa preocupação.
Abel só precisou virar um pouco para ver os olhos dela, vivos e travessos. Ela parecia uma pequena raposa, esperta e provocadora.
Ele forçou um sorriso, em seu rosto levemente tenso. “Desconfortável? Nem um pouco. Está ótimo.”
O tom provocador fez o coração dela falhar uma batida, e por um instante, Tess esqueceu de puxar. A força nas mãos diminuiu sem que ela percebesse.
“Tess, assim está bem tranquilo. Não parece que está desatando o nó do jeito certo”, disse Abel, sorrindo ainda mais, com sua voz cheia de malícia.
Voltando à realidade, Tess percebeu que tinha caído no joguinho dele. Lançou um olhar furioso e puxou o nó com ainda mais força.
O rosto de Abel se contraiu enquanto ele tentava manter o sorriso. “Isso… Assim mesmo… Perfeito”, ele conseguiu dizer entre respirações.
“Ah… Tess? Vocês dois…”
Bessie tinha acabado de entrar na cozinha e parou na hora.
Ela virou o rosto rapidamente e cobriu os olhos com as duas mãos.
“Eu não vi nada, eu não vi nada”, murmurou, recuando em direção à porta.
Antes de desaparecer pelo corredor, ainda gritou: “Sei que vocês jovens têm energia de sobra, mas se não vierem comer logo, o jantar vai esfriar.”

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