Hospital Vila Real.
Júlia segurou a barriga de oito meses, deitando-se na sala de ultrassom com todo o cuidado.
Porque essa era sua nona fertilização in vitro em três anos.
Nas oito vezes anteriores, ela havia abortado por diversos motivos.
Gravidez bioquímica, acidente de carro, queda da escada, ingestão acidental de remédios, hemorragia inexplicável...
O menor tempo foi no próprio dia em que o teste deu positivo.
O mais longo foi aos quatro meses, no dia em que sentiu o bebê se mexer pela primeira vez.
Ela esperou assim, vez após vez.
E vez após vez, viu a criança virar uma poça de sangue e carne.
Antes mesmo de ter tempo para ficar triste, era forçada pelo marido, Arthur, a deitar na cama do hospital para a próxima rodada de fertilização in vitro.
Sob dupla tortura física e mental, ela implorava a Arthur todas as vezes.
— Arthur, por favor, me deixe dar uma olhada na criança! Eu nunca vi nenhum deles...
Mas sua submissão só recebia indiferença em troca.
— Júlia, isso é o que você deve a mim e à Sofia.
Sofia.
A irmã biológica de Júlia.
Quatro anos atrás, na noite em que sua irmã e Arthur ficaram noivos.
Ela ficou bêbada e inexplicavelmente entrou no quarto de Arthur.
Uma noite absurda, e foram pegos na cama por todos.
Sua irmã saiu furiosa, Arthur dirigiu atrás dela, e os dois bateram de frente com um caminhão.
Sofia morreu grávida, e as pernas de Arthur ficaram paralisadas.
Antes de morrer, o motorista do caminhão apontou para Júlia, e a internet inteira desenterrou a paixão secreta de três anos que ela tinha por Arthur.
Assassinar a irmã, ir para a cama com o cunhado.
Mesmo sem evidências diretas, ela foi firmemente pregada no pilar da vergonha.
Por fim, Júlia também ficou dormente.
Ela ia ao Oratório da Família todo mês, apenas para pedir que os céus a punissem, e não punissem mais seus filhos.
Talvez os céus tenham tido pena dela, e essa gravidez finalmente chegou perto do parto.
Pensando nisso, Júlia sentiu um frio na barriga, e o bebê se mexeu em resposta.
Ela olhou para a tela, viu as mãozinhas da criança se movendo, e não conseguiu evitar estender a mão também.
Bebê, logo a mamãe vai poder segurar sua mãozinha.
Após o fim do exame, Júlia caminhava enquanto mandava uma mensagem.


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