Quando uma amiga comentou ter visto Samuel Santos entrando em um hotel em clima de intimidade com outra mulher, Clara Costa apenas riu e disse que ela com certeza havia visto errado.
Como Samuel seria capaz de traí-la?
Eles cresceram juntos, eram companheiros há treze anos e nutriam um sentimento profundo um pelo outro.
No mês passado, no aniversário dela, Samuel havia alugado o maior telão da Cidade Litoral apenas para fazer uma declaração de amor extravagante, mostrando a toda a cidade o quanto a amava.
Além do mais, eles estavam se preparando para ter um filho.
Naquele dia, ela finalmente havia pegado o laudo médico confirmando que estava apta para engravidar e correu para a empresa para ser a primeira a compartilhar a alegria com Samuel.
Ao sair do elevador que dava acesso direto ao último andar, no entanto, seu caminho foi bloqueado por uma silhueta.
— Como você subiu aqui? Sem hora marcada, não pode entrar!
A garota à sua frente usava um vestido amarelo. Era bonita, delicada e tinha traços que, por algum motivo, pareciam estranhamente familiares.
Ela espalmou as mãos na frente de Clara, com uma atitude de quem se achava dona do lugar.
— Sara, esta é a Sra. Clara, a esposa do chefe. Peça desculpas à senhora imediatamente — disse o assistente executivo, Gabriel, aproximando-se a passos largos e puxando a garota para o lado.
A garota pareceu surpresa por um instante antes de morder o lábio e erguer o queixo.
— Muito prazer, Sra. Clara. Meu nome é Sara, sou a universitária que o Sr. Samuel patrocina. Sou muito grata a ele pela oportunidade de estagiar ao seu lado. Eu não recebi nenhum aviso de que a senhora viria e acabei a impedindo por puro protocolo profissional. Tenho certeza de que a senhora compreende.
Os olhos dela pareciam inocentes, mas suas palavras carregavam espinhos.
Clara não respondeu. Apenas abaixou os olhos, fixando o olhar nas mãos da garota, e disse:
— A cor do seu esmalte é bonita.
Era um azul Morandi com um leve brilho, exatamente a mesma cor do resíduo que ela vira na unha do dedo mindinho da mão direita de Samuel no dia anterior.
Enquanto faziam o jantar juntos, ela tinha notado e perguntado. Samuel dissera que havia esbarrado em um tinteiro sem querer, e ela não pensara muito a respeito na hora.
Sara rapidamente escondeu as mãos nas costas e virou o rosto para o lado, esquivando-se do olhar.
Foi então que Clara viu. No pescoço alvo de Sara, bem atrás da orelha, havia uma marca de beijo profunda, com contornos que até pareciam hematomas de dentes.
Juntos há anos, Clara conhecia muito bem as pequenas manias sexuais de Samuel.
Quantas vezes, no auge do desejo, ele não havia enterrado o rosto atrás da orelha dela, deixando beijos profundos enquanto reprimia a própria excitação e murmurava, impaciente:
Ao empurrar a porta, vozes vazaram pela fresta.
— Brincar com uma substituta é uma coisa, mas colocá-la bem do seu lado é ousadia demais. Cuidado para a Clara não descobrir e dar problemas em casa.
Era a voz de Bernardo Borges, seu segundo irmão.
Os pés de Clara criaram raízes no chão, e o maxilar travou de frio.
Samuel estava a traindo, e até o próprio irmão dela sabia.
— Fique tranquilo. A Clara confia cegamente em mim. Ela me ama muito, é compreensiva e jamais me deixaria. Isso de dar problemas em casa é impossível. Além do mais, ela está totalmente focada em se preparar para a gravidez e não tem cabeça para mais nada.
A voz de Samuel soava grave e magnética, e cada palavra transbordava uma certeza arrogante.
Mas aquele tom a atingiu como espinhos envenenados, atravessando a madeira da porta e cravando-se diretamente em seu coração, fazendo-a sangrar.
— É verdade. Naquela época em que a Bianca contratou aqueles caras para dar um susto na Clara, e a Clara acabou levando duas facadas e quase perdendo o útero... quem na Cidade Litoral não sabe que ela ficou infértil?
— Se você não tivesse cuidado dela, se ajoelhado para pedir em casamento e a levado para viajar, não teríamos tido tempo de limpar a barra da Bianca e encobrir os rastros.

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