Clara reprimiu a vontade de retirar a mão do aperto dele e respondeu secamente:
— Não precisa. Talvez eu tenha tomado tanta medicina tradicional que meu coração amargou e comecei a imaginar coisas.
Samuel a olhou com compaixão e afagou seus cabelos.
— Minha esposa tem sofrido muito, mas, para a nossa felicidade e pelo nosso bebê, tente aguentar só mais um pouco, está bem? Eu já decidi, nós vamos ter apenas um bebê. Já até escolhi o nome dele.
Ele se inclinou para abraçar Clara, sussurrando em seu ouvido com expectativa.
Clara baixou o olhar, escondendo a repulsa nos olhos.
Dar à luz? Só se fosse para dar à luz uma marreta e esmagar a cabeça daquele desgraçado. Quem queria saber de bebê?
Família Borges, à mesa de jantar.
A mesa estava repleta de comida, mas ninguém havia tocado nos talheres.
O pai, Nicanor Borges, a mãe, Lídia, o irmão mais velho, Bruno Borges, e o segundo irmão, Bernardo Borges, estavam todos sentados.
De frente para a mesa havia uma grande tela, que exibia a interface de chamada do WhatsApp. A família inteira aguardava que Bianca, que estudava no exterior, atendesse à videochamada.
— Ah, continuem esperando. Eu estou com fome.
Clara pegou os talheres, pronta para começar a comer.
Nicanor fechou a cara imediatamente e a repreendeu:
— Ponha isso na mesa! Sem modos.
— Ah, então a Bianca fazer a família inteira passar fome esperando só por ela é o que vocês chamam de ter modos? — Clara retrucou com ironia.
Era engraçado. Ela não gostava de voltar lá, mas a família a obrigava a ir.
E quando ela ia, tinha que ficar de estômago vazio esperando por Bianca todas as vezes.
O País M tinha fuso horário em relação àquela região, e os Borges haviam até mesmo adiado o horário do jantar exclusivamente por causa de Bianca.
Lídia franziu a testa.
— Clara, a sua irmã está estudando sozinha no exterior, é muito solitário. O único desejo dela é fazer uma chamada e jantar com a família todos os dias. O que custa esperar um pouco pela sua irmã?
Bruno emendou rapidamente:
— A família preparou uma mesa cheia de comida maravilhosa para você, enquanto a Bianca só pode comer refeições rápidas no exterior. Do que mais você quer reclamar?!
Bernardo riu com desdém.
Ela abaixou a cabeça para tomar o mingau, quando Bernardo, num movimento brusco, bateu em sua tigela e a derrubou.
— Clara, as nossas palavras entram por um ouvido e saem pelo outro, é? Parece que está morrendo de fome! Eu te mostro como comer!
A tigela de mingau tombada molhou a roupa de Clara. O líquido fervente penetrou no tecido, e um calor ardente espalhou-se por seu peito e abdômen.
Mas ninguém se importou. Bernardo apontou o dedo para o rosto dela e continuou gritando:
— E mais, que besteira é essa que você está falando?! A Bianca é excepcional! Só com o talento que ela tem no violoncelo, piano e pintura, ela entraria facilmente em qualquer universidade!
Bruno também acrescentou em tom severo:
— E qual o problema se a Bianca foi atrás de um homem? Isso mostra que ela é confiante, dona de si mesma e responsável por suas escolhas. Se ela gosta, ela vai atrás! Não como você, que só tem uma reputação podre e envergonha a família. Sorte a sua que o Samuel não tem nojo de você!
Clara de repente se levantou, puxando a roupa encharcada, e só então Samuel percebeu que ela havia se machucado.
— Chega! Parem de falar, a Clara se machucou. Deixa eu ver!
Ele falou com uma expressão severa e, nervoso, puxou Clara para examiná-la.
— O mingau nem estava tão quente, que ferimento grave ela poderia ter? É só teatrinho. É a única coisa que ela sabe fazer. Samuel, você é fácil demais de enganar... — Lídia comentou com desdém.
Clara afastou as mãos de Samuel e, com um sorriso frio, levantou a própria blusa de uma vez.

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