"Você acha que é minha propriedade?"
Celina recuou até uma distância segura e ajeitou a roupa que ele havia bagunçado.
"Talvez eu nem chegue a ser uma propriedade", ela respondeu, encarando diretamente o olhar dele. "Mas, pelo menos, ainda sou uma pessoa que fala, que tem consciência. Peço que, quando for me usar, me trate com um pouco mais de respeito. Ficarei muito grata."
Jackson manteve os lábios cerrados numa linha fina, e aquele olhar profundo tornava impossível adivinhar seus pensamentos.
Celina não queria mais tentar adivinhar o que ele pensava.
Ela estava cansada. Sentou-se à mesa, tirou os remédios da bolsa e, seguindo as instruções, foi colocando os comprimidos na boca um a um.
Por fim, sobrou um frasco de colírio.
Jackson disse: "Deixe que eu faço."
Celina retrucou: "Não precisa."
Jackson tomou o colírio de suas mãos com firmeza, prendeu-a em seus braços e aplicou o remédio em seus olhos.
Celina não teve escolha a não ser inclinar o pescoço para colaborar com ele.
Assim, as marcas no pescoço dela ficaram visíveis aos olhos dele.
O olhar de Jackson escureceu por um instante e ele estendeu a mão para tocar o pescoço dela.
No entanto, Celina se afastou como se tivesse levado um choque.
Jackson ficou rígido por um instante, mas estabilizou a voz ao dizer: "Houve uma explosão no estúdio de fotografia, a polícia está investigando. Precisam que você colabore com o depoimento."
Celina tocou o próprio pescoço. Hoje, com a visão recuperada, também pôde ver as marcas, que estavam vermelhas e já começavam a escurecer. Calculou que levaria dias para sumirem.
"O que tem para depor? Não foi tudo um acidente?"
Não precisava nem analisar, o resultado da investigação seria igual ao da confeitaria: depoimento ou não, não faria diferença.
Seu desânimo era como uma faca cega, abrindo uma linha de dor no peito de Jackson.
Celina levantou-se para encerrar a conversa, mas Jackson a puxou para seus braços.
Ele beijou sua testa.
"Eu não deixei de te salvar. Os seguranças tinham a responsabilidade de proteger a Alice. A minha era proteger você. Quando corri para te procurar, você já não estava mais no camarim."
"Ah, obrigada."
Jackson franziu o cenho.
"Eu não tenho pais, não tenho ninguém por trás de mim. Poder ser chamada de Sra. Tavares depende inteiramente do seu favor. Se um dia você deixar de me amar, eu não terei nada. Suas promessas verbais são como todas as outras que já fez para mim: ditas e logo esquecidas."
Jackson entendeu o que ela queria dizer. Ela queria algo palpável, que pudesse segurar.
"O que você quer, então? Imóveis, ações da empresa?"
Jackson não perguntava por deboche.
Tudo isso ele podia dar.
Nunca teve intenção de se casar com outra mulher; ela era sua esposa. Mesmo que tivesse algumas ações da empresa, não seria demais. O resto, então, nem se falava.
Contudo, Celina lentamente tirou de sua bolsa um contrato de doação de bens e o colocou nas mãos dele.
"Da outra vez você me deu cinquenta milhões, já é muito. Eu só quero uma garantia: que, aconteça o que acontecer, nem você nem sua família poderão exigir esses cinquenta milhões de volta."
Jackson olhou para o contrato, em silêncio.
O coração de Celina batia um pouco mais rápido. Esforçando-se para manter a calma, perguntou: "Pode assinar, Diretor Tavares?"

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