Ao ver Celina entrar, seus movimentos pararam por um instante.
"Esses dias, vá para o interior fazer companhia ao vovô. Preste atenção ao estado de espírito dele."
Celina sentou-se à sua frente. "O que aconteceu com o vovô?"
Karina respondeu: "Ele já está pensativo há muitos dias, mas quando pergunto, não quer falar. Hoje, enquanto tomava sol lá embaixo, uma mulher veio conversar com ele, trocaram poucas palavras e, depois, ele ficou ainda mais abatido."
"Você sabe quem era?" perguntou Celina.
Karina olhou para o próprio pé. "Tentei seguir, mas não vi direito e ainda torci o pé."
Celina franziu o cenho.
……
De manhã cedo, Celina voltou trazendo frutas e encontrou o avô já acordado, tomando seu café da manhã.
"Vovô, para o Dia de Finados, o que devo comprar?"
O velho balançou a mão. "Não precisa, talvez… ele nem receba."
Celina se surpreendeu, mas ao ver a serenidade no olhar do avô, engoliu a dúvida.
Depois, partiram para o cemitério da Família Marques.
O avô encarou a lápide de Antônio, sua mão ressequida acariciando repetidas vezes a foto de Antônio. Ora dizia a Celina que um túmulo simbólico não traria de volta o espírito de Antônio e queria desfazê-lo, ora admitia estar confuso, sem entender a situação, o que deixava Celina ainda mais preocupada com seu estado mental.
Ao meio-dia, o avô preparou ele mesmo um arroz com batata-doce e assou uma travessa de pimentões.
Instantaneamente, Celina foi transportada de volta ao tempo em que acabara de chegar à Família Marques.
Quando a Família Marques a adotou, as condições em casa eram tão precárias que cada um tinha uma cota diária de arroz.
Com a chegada de mais uma boca, o avô passou a recolher batatas-doces e batatas deixadas nos campos depois da colheita, misturando-as ao arroz para que todos pudessem se fartar.
Celina não sabia se antes dos treze anos já tivera um lar feliz, mas durante os meses em que vagou pelas ruas, dormia todos os dias perto de lixeiras, e sempre que chovia forte, só podia se abrigar sob marquises.
Mesmo assim, sempre havia quem a expulsasse, achando-a suja e tratando-a como a um animal de rua. Nesses momentos, só lhe restava abraçar-se e seguir caminhando sob a chuva, até ela passar ou até encontrar algum abrigo.

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