GRANDE SENHOR VLADYA
Após dois dias inteiros na estrada, o Grande Senhor Vladya desejava nada mais do que se recostar em sua confortável cama e cochilar pelo resto do dia.
Era exatamente por isso que ele detestava se aventurar nos arredores de Urai. Mas o Ancião o havia convocado, não lhe dando escolha senão responder.
Cansado até o âmago, ele caminhava pelo caminho que levava aos seus aposentos. A visão de Sinai parada em frente à sua porta o fez parar.
Por Ukrae, como ela sabia que ele havia voltado?
A Senhora Sinai o cumprimentou com um sorriso.
— Você retornou?
—Como você soube da minha chegada iminente? - ele perguntou cautelosamente.
— Encontrei seu mordomo lá embaixo, meu Senhor - ela respondeu, caminhando em sua direção.
— Como foi sua jornada?
Ele respirou fundo.
— Exaustiva. Preciso descansar.
— Eu ouvi falar da garota. Esmeralda, esse é o nome dela?
— Emeriel - ele corrigiu bruscamente.
— Não que o nome dela tenha qualquer significado para mim. Do que se trata?
Uma profunda ruga marcou seu rosto, de outra forma adorável, enquanto ela se aproximava dele, parando diretamente em sua frente.
— Ouvi rumores de que a besta de Daemon havia se interessado por ele. Notícias sobre ela se espalharam por toda a fortaleza. É verdade? A besta realmente a procurou?
O Senhor Vladya ponderou por um momento, optando pela honestidade.
— Sim.
— Mas como isso é possível? - ela sibilou, seus olhos escurecendo.
— Eu visitei a besta por séculos, e nunca, ela mostrou qualquer sinal de reconhecimento, muito menos fixação. O que está acontecendo?
O Senhor Vladya pensou em lembrá-la de que mesmo antes de enlouquecer, Daemonikai nunca havia se fixado nela - mal a tolerava. No entanto, seria injusto.
Apesar da natureza muitas vezes insuportável de Sinai, como a hospedeira de sangue do grande rei, ela era uma das fêmeas mais poderosas e respeitadas em Urai. Neste caso, suas preocupações eram válidas.
— Não faço ideia do que está acontecendo, Sinai. Talvez seja o cheiro da garota. Talvez ela emita um aroma que atraia a besta. Um cheiro que a faça procurá-la. Nossos instintos primitivos podem ser imprevisíveis às vezes, como você bem sabe.
— Eu sei. Claro que sei. Mas isso? É simplesmente muito estranho. Não gosto nem um pouco disso!
— Por quê? - O Senhor Vladya soltou a maçaneta da porta e se virou para encará-la, suas sobrancelhas franzidas e quase alcançando sua linha do cabelo. — Você, acima de todos os outros, deveria estar radiante se, por alguma ocorrência milagrosa, a besta dele se fixou. Poderia significar algo positivo. Talvez sua mente não esteja totalmente perdida? Ou talvez sua sanidade esteja ressurgindo. Ele poderia se tornar o primeiro Urekai a emergir da loucura.
A boca de Sinai se abriu, fechou, e então abriu novamente.
— Você, de todas as pessoas, sabe que não funciona assim. Não há retorno. Uma vez que a mente se foi, está perdida para sempre, e em seu lugar permanece apenas um mero casco. Uma concha. Um fantasma do que ele já foi.
— Eu adicionei 'milagrosamente', não foi? - O Grande Senhor Vladya exalou.
— Tudo isso só reforça o fato de que é improvável que a besta deseje a garota como indivíduo. Provavelmente foi um incidente isolado - Ele massageou suas têmporas latejantes.
Mas agora, a besta atrás daquelas grades o encarava sem nenhum traço de reconhecimento.
Seu peito se apertou, tornando difícil respirar.
Vladya perdeu a noção do tempo enquanto mantinha a companhia do seu melhor amigo. Este lugar lhe infligia uma dor imensa, mas também proporcionava algum grau de paz. Ele o marcava, mas também oferecia cura. Era sua perdição e seu santuário.
O tempo se dissolveu em nada. Ele poderia ter passado minutos, ou horas aqui - simplesmente existindo em forma de besta. Excluindo o mundo.
Quando finalmente reverteu para sua forma humana, ele se sentiu melhor do que nos últimos dias. Mesmo que seu coração doesse.
Vladya olhou para Daemonikai, lágrimas se acumulando em seus olhos, mas ele se recusou a deixá-las cair. Ele não derramaria lágrimas. Não o fazia há séculos.
— Como você está, meu amigo? - ele falou, seu olhar fixo no espaço vazio.
— Às vezes, eu invejo você. Não há dor para você. Não há memórias. Não há recordações. Apenas um nada feliz. Sem sonhos para assombrá-lo. Mantendo acordado à noite, arrancando seu coração do peito.
Ele suspirou.
— Apenas um silêncio simples e feliz, mesmo que se manifeste como loucura.
Vladya contou tudo o que havia acontecido desde sua última visita ao selvagem, falando para o vazio, ciente de que o selvagem não podia ouvir nem compreender, mas era um ritual que ele realizava mesmo assim.
— Nada permanece o mesmo, entende. Nossa terra já não é mais o que era. Aquela noite nos marcou irreparavelmente. Sem você aqui para ancorar as pessoas, todos se perderam - Os olhos de Vladya estavam cansados, olhando através das grades.
— E a verdade é que não sei como ajudá-los.
Ele massageou a cabeça latejante.
— Séculos se passaram, e ainda não me encontrei novamente. Não acredito que algum dia encontrarei, nem desejo. É assim que todos nós estamos perdidos, Daemonikai.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Esse príncipe é uma menina: a escrava cativa do rei vicioso
Oi está dando ero com o capítulo 132...
Ruim, vc abre o capítulo depois não consegue ler novamente...