Sara deixou escapar um suspiro trêmulo e sentiu os olhos marejarem. Quando percebeu isso, Renato se aproximou ainda mais, deixando que a barreira invisível que os separava fosse quebrada.
— Não chora, por favor… — pediu, quase num sussurro, completamente desarmado. — Eu não quero te ver desse jeito.
Ela balançou a cabeça devagar.
— Não é isso.
— Então, o que é?
Sara ficou em silêncio por alguns segundos. Precisava organizar o turbilhão dentro dela antes de colocar em palavras. Mas, no fundo, a resposta já existia, ela só precisava de coragem para dizer.
— É que passei tanto tempo tentando ser forte — começou, em voz baixa — tentando me convencer de que podia seguir sem você, de que era melhor manter distância, que… em algum momento eu comecei a acreditar nisso. Ou pelo menos tentei acreditar.
Renato a observava em silêncio absoluto.
— Só que não adiantou — ela continuou. — Porque, por mais que eu quisesse te odiar, por mais que eu tentasse me proteger… uma parte de mim nunca deixou de te amar.
A respiração de Renato falhou.
Sara sentiu as lágrimas escorrerem e não tentou impedi-las.
— E talvez seja justamente isso que tenha me assustado tanto. Saber que, mesmo depois de tudo, eu ainda queria você perto. Que ainda me importava. Que ainda doía quando você se afastava.
Renato piscou, contendo a própria emoção, mas os olhos também brilhavam agora.
— Sara…
Ela ergueu a mão, interrompendo-o com delicadeza.
— Me deixa terminar.
Ele assentiu imediatamente.
— Eu não vou dizer que foi fácil chegar até aqui — continuou. — Porque não foi. Te perdoar não apaga o que aconteceu. Não apaga a dor, nem faz tudo voltar a ser como antes. Mas… — ela respirou fundo — eu não quero viver presa nisso para sempre. Não quero continuar alimentando uma mágoa que só está me destruindo por dentro.
Renato prendeu a respiração.
— E principalmente… — ela acrescentou, olhando para o filho dormindo no berço — eu não quero que nosso filho cresça cercado por ressentimento, por conta dos erros dos pais.
Tentando conter as lágrimas, ela o olhou bem no fundo dos olhos.
— Eu quero tentar, Renato. Quero realmente acreditar em você.
Por um instante, ele não reagiu, como se não tivesse certeza de que ouviu certo.
— Sério? — perguntou, com a voz rouca, quase inaudível.
Sara deixou escapar um pequeno sorriso entre as lágrimas.
— Eu quero te perdoar.
Foi como se o mundo tivesse parado naquele momento.
Renato ficou imóvel, olhando para ela como se tivesse acabado de receber algo que já não esperava mais. Os olhos dele se encheram de uma felicidade tão intensa que chegaram a doer em Sara. Era uma alegria contida, emocionada, quase infantil na pureza.
— Eu provo. Todos os dias, se for preciso.
— Vai mesmo.
— Vou.
Renato se inclinou devagar sobre a cama, como se ainda tivesse receio de ultrapassar algum limite e, tomado pelo desejo e a saudade, a beijou. Quando seus lábios tocaram os dela, foi com uma gentileza à qual Sara não estava acostumada. Não havia pressa, nem intensidade exagerada, apenas cuidado. Um beijo calmo, sincero, que dizia mais do que qualquer palavra, como se ele quisesse mostrar ali, naquele simples gesto, que estava disposto a fazer tudo diferente dali em diante.
Tomada pela saudade da proximidade e pelo calor do corpo dele, Sara levou a mão até o pescoço de Renato, puxando-o um pouco mais para perto. O beijo, que começou suave, foi ganhando intensidade aos poucos, como se ambos estivessem recuperando, em segundos, tudo o que haviam perdido em tanto tempo.
Foi então que um pigarro discreto quebrou o momento, fazendo os dois se afastarem imediatamente, um pouco sem jeito.
— Vim ver como está se sentindo, Sara — disse o médico, mantendo o tom profissional, como se não tivesse acabado de interromper nada.
— Estou bem, doutor… maravilhosamente bem — respondeu ela, ainda tentando disfarçar o constrangimento.
O médico lançou um olhar rápido para Renato, que parecia tão satisfeito quanto ela, e assentiu.
— Certo… Qualquer coisa, aperte o botão ao lado da cama, caso precise de uma enfermeira.
— Obrigada, doutor.
Ele já ia sair, mas parou na porta e se virou novamente.
— Não quero parecer indelicado, mas, após o parto, é recomendado aguardar cerca de quarenta dias antes de retomar a vida sexual.
Na mesma hora, Sara olhou para Renato, sentindo as bochechas queimarem, completamente envergonhada ao perceber que o médico havia entendido tudo errado.

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