Como sabia que naquele momento ele estava bem longe — e ainda mais com uma mulher —, Sara segurou o choro e decidiu se controlar. Pelo seu bem e pelo bem do filho.
Se Renato, mesmo sabendo que ela estava prestes a ter o bebê a qualquer momento, preferiu sair e se aventurar por aí, então não havia motivo para avisá-lo de nada.
— O motorista — falou, lembrando de repente. — O Renato deixou o motorista dele à minha disposição. Chame-o, Odete.
— Tudo bem. — Odete já saía do quarto. — Vou chamar agora.
Enquanto Odete saía para chamar o motorista, Sara se levantou com dificuldade e foi até o closet pegar a mala do bebê, que já estava pronta. Enquanto pegava, deixou algumas lágrimas silenciosas rolarem pelo rosto. Não existia dor maior do que estar sozinha numa hora daquelas.
Durante todos aqueles meses, Renato havia estado ao seu lado em cada consulta. Por isso, apesar de todos os desentendimentos, sempre pensou que no momento do nascimento do filho ele estaria lá.
Mas não estava.
Ao averiguar que tudo estava certo, ela fechou a mala, enxugou o rosto com o dorso da mão e respirou fundo. Não havia tempo para se desmoronar agora.
Não demorou muito. O motorista e Odete entraram no quarto e a ajudaram a sair com as malas do apartamento.
— Vou avisar ao Renato que você está entrando em trabalho de parto — disse Odete enquanto entravam no elevador.
— Não. Não faça isso. — Sara a advertiu. — O Renato deve estar muito ocupado. Não quero atrapalhá-lo.
A última frase saiu carregada de ironia e mágoa. Odete e o motorista trocaram um olhar discreto, mas não disseram nada.
Quando chegaram ao estacionamento, entraram no carro e seguiram em direção ao hospital, onde tudo já estava preparado para aquele momento.
— Ai. — Sara gemia de dor.
— Fica calma, já estamos chegando. — Odete segurou a sua mão.
Mesmo sentindo dor, Sara a encarou e fez um pedido.
— Você pode ficar comigo? Não quero passar por isso sozinha.
— Menina, quem devia estar com você era o Renato.
— Mas ele não está. — Rebateu, nervosa. — Ele escolheu estar em outro lugar. E aposto que deve estar se divertindo muito. — Completou.
Sabendo que Sara estava nervosa e sentindo dores, Odete decidiu não rebater. Apenas assentiu.
— Não se preocupe. Eu fico com você.
Assim que chegaram ao hospital, o médico que fazia o acompanhamento mensal já a esperava.
— Sara, que bom que chegou. — O médico se aproximou com um sorriso tranquilo. — Vamos te levar para o quarto agora.
Ela apenas assentiu, sem forças para falar.
Assim que chegaram ao quarto, a enfermeira a ajudou a se trocar e a se deitar na maca. O médico se aproximou para examiná-la e Sara fechou os olhos, respirando fundo enquanto tentava suportar mais uma contração.
— Vamos ver como você está. — Disse ele, realizando o exame. Alguns segundos depois, ergueu o olhar. — Está com seis centímetros de dilatação. O bebê está a caminho.
— Quanto tempo ainda? — perguntou, com a voz tensa.
— Difícil precisar. Pode ser algumas horas ainda. — Respondeu com calma. — Mas está evoluindo bem. Agora preciso que você tente respirar direito entre as contrações, tudo bem?
Sara assentiu de novo, encarando o teto.
Algumas horas. Ela teria que aguentar aquilo por mais algumas horas, sem Renato ao seu lado.
Odete puxou a cadeira para perto da cama e sentou, pegando a mão de Sara entre as suas.
A mulher hesitou um pouco. Ficou pensativa por alguns segundos, depois voltou o olhar para a janela, como se a mente viajasse para um lugar distante.
— Eu não tive essa oportunidade. — Confessou, com uma leve melancolia na voz.
Sara abriu a boca para dizer algo, mas Odete continuou antes que pudesse.
— Mas estive com a minha irmã no parto dela. — Voltou o olhar para Sara, e o brilho nos olhos ainda estava lá. — E vi com os meus próprios olhos que tudo passa assim que você recebe seu filho no colo.
O conforto veio no mesmo instante, seguido de mais uma contração. Mesmo assim, Sara não se conteve.
— Eu tenho certeza de que, se tivesse tido filhos, você seria uma ótima mãe.
A frase fez um sorriso surgir nos lábios de Odete, junto com uma lágrima solitária que quis escapar, porém ela não se deixou levar. Apenas segurou firme a mão de Sara, vendo-a suar com mais uma contração que, a cada hora que passava, chegava mais perto da outra.
O médico voltou ao quarto e a examinou mais uma vez. Dessa vez, ergueu o olhar com uma expressão diferente.
— Dez centímetros. — Disse, com calma e firmeza. — Sara, agora você vai precisar fazer força. Consegue?
Ela assentiu, mesmo com o coração na garganta.
As enfermeiras se movimentaram rápido, cada uma assumindo o seu lugar. O médico se posicionou. Odete segurou a mão de Sara com as duas mãos, pronta para não soltar.
— Quando eu mandar, você faz força. Tudo bem? — O médico a encarou.
Sara respirou fundo e fechou os olhos por um segundo. Estava com medo. Muito medo. Mas não havia mais como voltar.
— Tudo bem.
No momento em que tudo estava prestes a começar, a porta do quarto se abriu e Renato entrou.

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