Quando acordou pela manhã, Sara sentiu a cabeça latejar. Os olhos ardiam, o corpo pesava, reflexo de uma noite em claro. Havia chorado tanto que, em determinado momento, não conseguiu mais permanecer deitada ao lado de Renato.
Com o coração apertado, levantou-se devagar, tomando cuidado para não acordá-lo, e saiu do quarto de hóspedes. Cada passo parecia mais difícil do que o outro, como se estivesse deixando algo que, poucas horas antes, havia decidido tentar recuperar.
Entrou no próprio quarto e, sem pensar muito, trancou a porta.
Encostou-se na porta por um instante, fechou os olhos, tentando conter a onda que ainda tomava conta dela. Queria não pensar no pior, mas a sua mente era mais rápida do que a sua razão.
Caminhando até o banheiro, percebeu que o corpo estava estranho, mais pesado do que o normal, como se algo não estivesse bem. Pensou que fosse apenas pelo cansaço, pela noite mal dormida, e ignorou. Tomou um banho demorado, tentando acalmar a mente, depois vestiu uma roupa confortável e olhou para o relógio. Ainda não eram oito da manhã.
Imediatamente, o pensamento voltou-se para Renato.
“Será que já tinha acordado? Será que viu a mensagem no celular?”
O coração acelerou.
“E se tivesse visto… será que iria encontrar a tal de Kelly?”
Fechando os olhos por um instante, respirou fundo, tentando afastar as próprias suposições antes que perdesse o controle de novo.
— Não começa, Sara… — sussurrou. — Não crie o problema antes dele acontecer.
Decidida a manter a calma, saiu do quarto. Pensou em ir até o quarto de hóspedes, mas desistiu no meio do caminho. Era melhor deixar que ele acordasse sozinho, assim veria o que faria ou diria. No fundo, só queria estar errada. Queria acreditar que Renato teria alguma explicação plausível para toda aquela confusão.
— Bom dia, Odete — disse ela, entrando na sala de estar, vendo a mesa já posta.
— Bom dia, menina. Dormiu bem?
— Não… — respondeu, sincera.
Sem pensar muito, se aproximou dela e abaixou um pouco a voz:
— O Renato veio aqui ontem e acabou dormindo aqui.
— Eu sei — Odete respondeu, naturalmente.
Sara franziu o cenho.
— Sabe? Como?
— Eu o vi pela manhã.
Seu coração deu um leve salto.
— Então… ele já acordou?
— Sim, mas teve que sair.
A informação caiu como um balde de água fria.
— Ele… saiu? — repetiu, tentando disfarçar.
— Saiu, sim. Disse que não ia demorar muito e pediu para te avisar.
Engolindo em seco, tentou manter a expressão neutra, mas falhou miseravelmente.
— Ele comentou para onde estava indo?
— Não… — Odete respondeu, pensativa. — Só parecia estar apressado.
O silêncio se instalou por um instante.
Tentando organizar os próprios pensamentos, Sara desviou o olhar, mas o incômodo já começava a crescer dentro dela.
— Entendi…
Embora parecesse calma, a mensagem, o nome e a foto da mulher voltaram à mente.
— Ele deve ter ido se encontrar com ela — murmurou, quase sem perceber.
Odete a observou com atenção.
— Aconteceu algo?
— Eu não sei… — confessou, evitando encará-la.
— Você ficou tensa assim que eu disse que ele saiu — observou, com calma.
Sara respirou fundo antes de responder:
— Eu não fiquei tensa por ele ter saído, fiquei por imaginar para onde ele foi.
Aquilo fez Odete parar o que estava fazendo e se sentar ao lado dela.
— Isso não é fraqueza, menina, é só medo de se machucar outra vez.
— Eu só queria que tudo fosse diferente… — completou. — Queria que esses sentimentos e essa insegurança não existissem.
— Tenha calma, menina. Com o tempo, essa desconfiança vai passar.
Antes que pudesse continuar, o celular de Odete começou a tocar. Ela tirou do bolso do avental, olhou a tela e viu o nome de Renato.
— É ele — avisou, tentando acalmá-la.
Atendeu e, do outro lado, Renato perguntou por Sara, querendo saber se ela ainda estava dormindo.
— Não, ela acabou de acordar, está aqui tomando café.
Houve uma breve hesitação.
— Pode passar para ela?
— Claro.
Odete entregou o celular, e Sara o pegou com certo receio.
— Bom dia, Renato…
— Bom dia, Sara — respondeu ele, com a voz neutra.
Aquilo já a deixou em alerta.
— Olha… eu sei que a gente tinha combinado de conversar hoje de manhã, mas surgiu um imprevisto. Vou precisar ir até a capital. Se tudo der certo, volto ainda hoje… mas, provavelmente, só amanhã.
O coração dela apertou.
— O que você vai fazer lá? — perguntou, mesmo sabendo que talvez não tivesse esse direito.
E então, antes que ele respondesse, ela ouviu uma voz feminina, bem clara.
— Já estou pronta, Renato. Podemos ir quando você quiser.
Sara não disse nada, pois não conseguiu. Apenas apertou o celular com força.
O peito doeu. Porque, naquele instante, a dúvida virou quase certeza e aquilo foi o suficiente para tudo desmoronar outra vez.

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