A fala do Dr. Guedes foi direta e cortante como um bisturi.
— Ela ainda está em coma induzido. Dado o grau severo de privação de sono das últimas semanas, o organismo entrou em exaustão extrema. Só despertará quando o corpo entender que está repousado o suficiente.
Tendo recebido o prognóstico completo, Bernardo deu um leve aceno afirmativo.
Em seguida, sem perder tempo, caminhou rumo ao quarto de observação intensiva.
O silêncio reinava absoluto ali dentro.
Uma enfermeira, recém-encarregada de trocar as bolsas de soro e transfusão de sangue, apressou-se a se retirar.
Principalmente porque a aura macabra emanando de Bernardo era sufocante.
Ele postou-se ao lado da grade da cama e lá ficou parado, devorando a mulher imóvel com os olhos.
Suas mãos se cravaram com força nos bolsos das calças.
O ruído dos monitores cardíacos era o único som naquele vazio angustiante.
E assim as horas se arrastaram, esgotando cada pingo da paciência e da sanidade que ainda restava nele.
Até que, enfim, as pálpebras de Cora estremeceram e se abriram lentamente.
Quando a vista se acostumou com a luz e deparou-se com a figura dele, seus olhos mostraram um traço de decepção e confusão.
Bernardo deu passos lerdos, aproximando-se sem dizer palavra.
Postou-se como um sentinela bem próximo ao rosto dela.
Em vez de histérica, Cora demonstrou uma estranha placidez.
Apenas avaliava o rosto daquele homem com a frieza reservada aos desconhecidos.
— Bernardo... — sua voz era só um fiapo arrastado e amargo — Por que nem na morte você se dispõe a me libertar?
O anseio pela morte já tomara conta do seu âmago.
Que maldito propósito ele tinha ao arrancá-la do limbo?
Ela nem saberia descrever se o que sentia era luto perpétuo ou apenas desolação extrema.
Era como se estivessem condenados a se arrastar juntos pelos círculos do inferno.
E ela já não suportava dar um único passo sequer.
Contudo, o olhar fixou-se nele, questionando:
— O que mais você quer de mim?
Uma pergunta feita à exaustão, até perder o sentido.
Mas o que isso importava agora?
Soltou mais um de seus risos secos, sem graça alguma, voltando o rosto de lado.
Do outro lado, Bernardo continuou a observá-la como uma fera enjaulada.
Que santo garantiria que o destino seria tão complacente de novo?
Ao adentrar aquele banheiro no escuro, ele já estava preparando a alma para encarar um cadáver em sua própria casa.
Se não fosse pela rapidez, ela sequer teria pulso suficiente para bater até os portões do hospital.
A força implacável da tentativa deixara evidente a profundidade obscura daquele mar de amargura.
Dizer que não sentira as bases do seu orgulho tremerem seria pura mentira.
Da jovem que vivia apenas para refletir Bernardo nas pupilas.
Que via no Sr. Pereira a sua bússola para todo o mundo.
Mesmo com patadas e um escárnio cruel, a Cora antiga jamais ousaria abandonar seu posto.
Bastava um mero vislumbre de aprovação para que ela retomasse as forças e florescesse outra vez.
Infelizmente, aquele manancial de amor se ressecara até virar uma terra morta e infrutífera.
E foi essa noção implacável que silenciou Bernardo por definitivo.
O homem, agora, contemplava a ruína que ele mesmo gerou: a desintegração mental de alguém que ele destruiu pouco a pouco.
Roubando, no processo, a fagulha mais primitiva da natureza humana: a vontade de continuar vivo.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Encurralada pelo Meu Ex-Marido Obsessivo
Não entendi nada pq o diálogo dessa negociação mudou para essa linguagem nórdica....