— Adelina... — Bernardo tentou acalmá-la, mas ela não deu brecha.
— A Cora acabou de matar o meu filho e agora você também está me empurrando para o abismo. Ah...
Uma risada histérica escapou de seus lábios:
— Transplante de córnea... eu só preciso de uma! A Cora não vai morrer e não vai ficar cega. No máximo, a visão dela ficará prejudicada. Mas se eu não receber essa córnea, eu vou morrer. Eu não vou suportar viver na escuridão. Quem vai ter pena de mim quando eu estiver cega?
— ...
— Bernardo, eu não posso perder você e também perder a minha carreira. Eu simplesmente não consigo aguentar uma desgraça atrás da outra.
— É assim que você quer me tratar? Me escondendo a verdade até no meu leito de morte?
No fim do discurso, a respiração de Adelina estava ofegante.
A expressão de Bernardo mudou drasticamente.
Ele deixou Cora de lado e apressou o passo rumo ao quarto da amante.
— Adelina, tente se acalmar. Estou indo para aí agora mesmo. — Bernardo tentou confortá-la.
Mas ele não podia ver a cena que se desenrolava.
Adelina já havia aberto a porta do quarto e marchava rapidamente em direção à ala da maternidade.
— Eu não consigo me acalmar! Não consigo! — berrou Adelina.
— Bernardo, se eu fizer uma loucura, a culpa será inteiramente de vocês! — rosnou pelo telefone.
Num autêntico ataque de histeria.
E desligou logo em seguida.
Encarando a tela apagada do celular, o rosto de Bernardo perdeu a cor.
Ele começou a correr pelos corredores.
Enquanto isso, Adelina avançava implacável.
Qualquer traço do colapso anterior havia desaparecido de sua feição, dando lugar a uma frieza calculista e perversa.
O ataque de loucura ao telefone fora, obviamente, um teatro.
Se ela estivesse fora de si.
Qualquer atitude intempestiva ganharia uma justificativa plausível.
Bernardo não teria como culpá-la.
E ela não daria a Cora a menor chance de continuar respirando.
Se ele não tinha coragem de sujar as mãos.
Ela mesma faria o serviço.
— Sra. Botelho! — Um dos seguranças a notou.

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