Contudo, por trás do medo, havia uma onda profunda de repulsa e indignação.
— Você é desprezível e sem vergonha, Bernardo! — Cora praguejou entre os dentes.
Levada por um impulso incontrolável, Cora ergueu a mão para dar um tapa nele.
Mas antes que o golpe o atingisse, Bernardo interceptou o pulso dela no ar e a empurrou de volta com força.
— Acha mesmo que eu sempre vou te dar a chance de me bater, Cora? — Bernardo deu uma risada fria.
O empurrão a fez cair de costas no sofá.
Sua mente viajou instantaneamente para as conversas alarmantes que escutara sobre o estado do irmão.
O peito apertou-se numa dor excruciante.
Lembrou-se do quanto Nicolas se preocupava com ela, e de quão frágil era a saúde mental dele naquele momento.
Ao olhar para cima e deparar-se com a expressão sádica e ameaçadora de Bernardo, Cora perdeu totalmente a razão.
Ela precisava ver Nicolas.
Aterrou-se com a possibilidade de que Bernardo fizesse algo contra ele.
Ela conhecia a crueldade daquele homem melhor do que ninguém; ele não hesitaria em usar métodos cruéis.
Para ele, os fins sempre justificavam os meios.
Ela morria de medo de que algo trágico acontecesse a Nicolas.
Por isso, levantou-se abruptamente num ímpeto cego, decidida a forçar a saída do quarto sem sequer lhe dirigir a palavra.
Mas Bernardo foi mais rápido. Ele a puxou de volta e disparou:
— Vai mesmo tentar me desafiar, Cora?
Ela continuou em silêncio, lutando contra o aperto dele.
O tumulto da briga chamou a atenção da equipe médica. O doutor responsável irrompeu pela porta num átimo.
Ao deparar-se com a cena, o médico arregalou os olhos num sobressalto e instintivamente procurou o rosto de Bernardo.
Cora era uma gestante; qualquer choque emocional brusco poderia acarretar um desfecho desastroso.
Ainda que optassem pela cesariana imediata, com a mãe sob um estresse emocional tão severo, as chances de salvar a criança seriam ínfimas.
Havia um risco iminente de óbito fetal.
Contudo, a prioridade absoluta de Bernardo era um recém-nascido vivo.
— Sr. Pereira, o senhor não pode fazer isso... — O médico gaguejou, tenso, tentando aconselhá-lo.
A intervenção do profissional pareceu devolver uma lasca de sensatez a Bernardo.
No entanto, a ira não se dissipou de seu olhar enquanto ele ditava, pausadamente:
— Aplique um sedativo nela.



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