Lucas Ferraz não suportava mais a sensação de estar assistindo à própria vida de fora.
Tudo parecia acontecer sem que ele pudesse interferir. O trabalho escorregava lentamente de suas mãos. Camila se distanciava com frieza estratégica. E Isabela… Isabela seguia como se ele fosse apenas uma nota de rodapé encerrada.
O que mais o corroía não era a perda em si.
Era a irrelevância.
Naquela noite, sozinho no apartamento silencioso demais, ele abriu uma garrafa de vinho que não pretendia dividir. Sentou-se na varanda e encarou a cidade como se ela lhe devesse respostas.
Pegou o celular.
Abriu o perfil profissional de Isabela.
A foto era recente. Formal. Segura. Ela estava mais confiante do que ele se lembrava. Havia algo nos olhos dela que não era desafio — era estabilidade.
Ele desceu a tela.
Novo cargo.
Novo projeto.
Nova cidade marcada na bio.
Os comentários eram positivos. Colegas elogiando. Parcerias celebrando.
Lucas sentiu o estômago revirar.
Ela estava crescendo.
Sem ele.
Sem qualquer vestígio da vida que tinham dividido.
E foi ali que a decisão nasceu — não madura, não estratégica.
Impulsiva.
Ele abriu o contato de um jornalista que conhecia há anos. Um homem discreto, sempre interessado em histórias que envolviam bastidores corporativos.
Digitou.
Apagou.
Digitou novamente.
“Tenho uma informação relevante sobre uma movimentação recente no mercado. Pode te interessar.”
A resposta veio quase imediata.
“Que tipo de informação?”
Lucas hesitou por três segundos.
Três segundos que poderiam ter evitado tudo.
Mas ele estava cansado de perder.
“Conflito de interesse. Mudança estratégica questionável. Posso explicar melhor.”
Ele não citou o nome de Isabela.
Ainda não.
Mas sabia exatamente onde queria chegar.
Se ele não podia recuperar o acesso emocional, poderia pelo menos desestabilizar o terreno onde ela estava construindo algo novo.
Era isso que ele dizia a si mesmo.
Não era vingança.
Era equilíbrio.
Mas, no fundo, ele sabia: era desespero.
Na manhã seguinte, Lucas acordou com uma ressaca leve e uma sensação mais pesada ainda. Por um instante, pensou em cancelar. Fingir que nada fora enviado.
Mas o jornalista já tinha respondido pedindo detalhes.
Lucas marcou um encontro.
Enquanto isso, em outra cidade, Isabela se preparava para a primeira reunião oficial do novo projeto. Vestia um blazer azul-marinho, cabelo preso com firmeza, postura segura.
Henrique a esperava do lado de fora do prédio.
— Nervosa? — perguntou ele.
— Não — respondeu ela, sincera. — Atenta.
Ele sorriu.
— Gosto dessa palavra.
Isabela respirou fundo antes de entrar.
Não sabia que, naquele exato momento, Lucas estava sentado em um café discreto, inclinando-se para frente e dizendo:
— A movimentação dela pode parecer limpa, mas houve decisões tomadas antes da formalização da saída do casamento. Pode gerar questionamentos.
O jornalista arqueou a sobrancelha.
— Você está insinuando conflito ético?
Lucas deu de ombros.
— Só estou dizendo que talvez valha investigar.

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