Isabela Moretti sentiu o impacto do encontro com Lucas apenas horas depois.
Não no momento.
Não diante dele.
Não enquanto caminhava ao lado de Henrique.
Foi quando fechou a porta do apartamento e o silêncio a envolveu de novo — não como vazio, mas como um espaço limpo, intacto.
Ela encostou a bolsa na cadeira e ficou alguns segundos parada, respirando fundo. O coração estava calmo demais para quem acabara de enfrentar o passado frente a frente.
E isso disse tudo.
Henrique permaneceu perto da porta, respeitando aquele instante sem invadi-lo.
— Se quiser que eu vá… — começou.
Isabela virou-se devagar.
— Não — respondeu. — Fica.
Não havia urgência na voz. Nem necessidade. Apenas escolha.
Eles se sentaram no sofá, mantendo uma distância confortável. Não havia clima de romance, nem tensão contida. O que havia era algo mais raro: segurança emocional.
— Ele ainda tenta te alcançar como antes — disse Henrique, depois de um tempo.
— Sim — respondeu Isabela. — Mas é estranho… não dói.
Henrique assentiu.
— Porque agora ele fala com quem você já não é mais.
Ela sorriu de leve.
— Exatamente.
Isabela percebeu que podia falar de Lucas sem se encolher, sem justificar, sem se defender.
— Eu passei muito tempo achando que precisava explicar minha saída — continuou. — Hoje entendo que quem não quis escutar quando eu estava presente não merece explicações agora.
Henrique a observou com atenção tranquila.
— Você não fechou a porta com raiva — disse. — Fechou com consciência. Isso é definitivo.
Ela sentiu um arrepio suave — não de medo, mas de reconhecimento.
— É — concordou. — E isso assusta mais do que qualquer confronto.
Do outro lado da cidade, Lucas Ferraz encarava o próprio reflexo no espelho do banheiro.
O homem que o encarava de volta parecia menor. Não fisicamente — emocionalmente. Havia algo no olhar que ele não reconhecia: perda sem possibilidade de negociação.
Ele tinha tentado o discurso.

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