Ele permaneceu em silêncio por um longo tempo, incapaz de proferir uma única palavra.
Foi somente após essa exaustiva eternidade que Valentina captou sua voz, quase imperceptível, rouca e sufocada, sussurrando algo como: *Você é minha esposa.*
*Por direito, você é minha mulher.*
Ao ouvir aquelas palavras doentias, Valentina deixou escapar um riso incrédulo.
— Você é mesmo um caso perdido.
Ela o empurrou, tentando sair, mas ele se manteve obstinado, barrando seu caminho. O medo de que, se ela desse as costas, ele nunca mais a visse, o prendia a ela.
Valentina empurrou com mais força. Ele sequer se moveu, mas o impacto fez com que um pequeno frasco de remédio caísse do bolso dele.
O frasco atingiu o chão e rolou por alguns centímetros.
O olhar de Valentina se fixou no objeto.
— O que acontece se você não tomar isso?
A respiração dele estava pesada e ofegante. — Eu não morro.
— E o que acontece?
— Dói.
— Só isso? Dói?
— ...Uhum.
Uma pena, pensou ela. Mas a dor já servia como um consolo. Era o mínimo que ele merecia, afinal, ele não tinha o direito de levar uma vida plena.
Ao ler o rótulo do frasco de relance, Valentina voltou o olhar para o rosto de Cícero. O suor frio brilhava em sua testa, denunciando o esforço brutal de tentar se conter. — Ah, então são pílulas para os seus problemas psicológicos. É a mesma doença de antes?
A respiração de Cícero arranhava sua garganta, grave e ríspida.
Com uma dificuldade extrema, as palavras saíram como lixa áspera, ditas entre dentes: — ...Eu não sou doente.
— Acredite no que quiser. — Valentina não estava interessada em debater algo tão banal. — Por mais que esteja doendo agora, aposto que você não chegou ao ponto de querer se jogar do segundo andar de um prédio, certo? Se não chegou nesse nível, então ainda não está doendo o suficiente.
Ouvir o tom impassível dela mencionar aquilo foi um gatilho devastador. Instantaneamente, a mente de Cícero foi inundada pela lembrança do momento em que ela se jogou do segundo andar da Mansão Pacheco. A imagem dela, quebrando-se contra o chão como uma mariposa mergulhando nas chamas, com o rosto pintado por um desespero pálido e sem vida.
Ali, não havia desejo de viver. Só restava a agonia de odiá-lo.
A cabeça de Cícero pareceu prestes a rachar ao meio de tanta dor.
Finalmente, suas forças o abandonaram. A muralha que ele usara para encurralá-la ruiu.
Dessa vez, um leve empurrão de Valentina foi o bastante para afastá-lo.
Ela chutou o frasco de remédio. Observou o vidrinho rolar e desaparecer no meio do gramado do jardim. Só então, virou-se e caminhou de volta para a casa.
— ...Valentina.
A voz oca e densa dele soou às suas costas, como o grito silencioso de alguém tentando agarrar a borda de um abismo antes de cair na morte.
A lua estava perfeitamente redonda naquela noite.
O vento soprava com uma quietude gélida.
Por uma fração de segundo, o cenário evocava os fantasmas de uma noite antiga.
Aquela noite em que, desesperada, ela correra pelo mato, os galhos rasgando sua pele e derrubando-a no chão, até finalmente encontrar Cícero escondido em um quarto escuro.
Ele estava encolhido num canto, encharcado de sangue. O uniforme escolar estava quase totalmente tinto de vermelho.
Foi Valentina quem o carregou, sozinha, com dificuldade até em casa. Apertando os dentes, com as lágrimas despencando pelo rosto, ela havia jurado: *— Cícero, eu vou me vingar por você. Quem encostou a mão em você vai pagar caro...*
Parecia que havia passado muito, muito tempo.
Eras. Séculos. Como se fosse uma memória de outra vida.
Valentina não interrompeu seus passos. Continuou andando, impassível, deixando a escuridão do quintal para trás e adentrando a luz da vila.
Se tomasse o remédio, perdia a cabeça. Se não tomasse, sofria os colapsos físicos. O CEO do Grupo Pacheco, ainda no auge de sua juventude, não podia continuar como um morto-vivo daquele jeito.
— O tratamento exige que descubramos os gatilhos emocionais, só assim podemos receitar a medicação correta. Mas o paciente, no momento, recusa-se categoricamente a cooperar. Tudo o que me resta é administrar tranquilizantes para acalmar os picos de estresse.
Mal o psiquiatra encerrou a frase, Cícero já estava sentado na beirada da cama.
— Não preciso disso. — A voz dele soou ríspida, ainda arranhada. — Eu não sou doente.
O médico encolheu os ombros levemente, soltando um suspiro de desistência.
Hugo calou-se, sentindo um nó na garganta.
Antes de se dirigir à empresa na manhã seguinte, Cícero exigiu que o motorista fizesse um desvio e parasse em frente ao Primeiro Hospital. Ele só autorizou a partida rumo ao Grupo Pacheco depois de certificar-se de que Valentina ainda estava lá.
No saguão da empresa, o ambiente pulsava de maneira estranha.
— Bom dia, Sr. Cícero...
— Sr. Cícero.
Os funcionários, nos corredores, trocavam olhares e observavam cada movimento deles.
Enquanto Hugo tentava decifrar o que estava acontecendo, paralisou os passos ao avistar uma figura inesperada no lobby principal do edifício.
Amélia estava lá. O cabelo impecavelmente ondulado, lábios tingidos de um vermelho vibrante. Parecia ainda mais extravagante do que da última vez em que se cruzaram.
— Cícero, quanto tempo. — Ela esboçou um sorriso polido e avaliou o semblante exausto do homem à sua frente. Após um breve silêncio, perguntou: — Você está bem?
As portas do elevador executivo se abriram ao fundo. Ignácio Pacheco saiu caminhando a passos lentos e confiantes, trajado em um terno sob medida, ladeado pelos membros do conselho de administração.
Ao presenciar aquela cena, as peças do quebra-cabeça se encaixaram na mente de Cícero. Era assim que Valentina pretendia destruí-lo.
Seu rosto manteve a rigidez glacial de sempre. Retirando o olhar de Amélia, ele respondeu num tom raso:
— Melhor impossível.

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