Valentina permaneceu em silêncio por vários segundos, piscando devagar, como se a realidade demorasse a se assentar.
Quando a chamada estava prestes a cair por falta de resposta, ela atendeu.
Um farfalhar silencioso do vento percorreu a linha —
Nenhum dos dois disse nada.
Demorou um tempo até que uma voz finalmente rompesse o silêncio, aquela voz grave, suave e inconfundível: — Você está bem?
Valentina mergulhou num longo silêncio mais uma vez.
— Estou... — murmurou, a voz baixa. — Estou bem.
E então, o abismo do silêncio se abriu novamente. Após alguns instantes, ela perguntou: — E o Sávio?
— Ele está bem.
Mais uma pausa esmagadora se seguiu, até Valentina perguntar: — E você?
A linha ficou muda.
— Ainda estou vivo.
O ar pareceu ficar rarefeito, e nenhum dos dois se atreveu a quebrar a quietude de novo.
Foi Valentina quem desligou primeiro. Ela se sentou em um banco de pedra no quintal da vila, sentindo o vento gelado no rosto, e soltou um suspiro profundo.
Ao guardar o celular no bolso e abaixar o olhar, notou repentinamente uma sombra projetada no chão ao seu lado.
Ela seguiu a sombra com os olhos e, virando-se para trás, deparou-se com Cícero.
Ele parecia estar parado ali há muito tempo. A figura alta erguia-se inabalável como um pinheiro na noite, mas a expressão em seu rosto estava submersa na escuridão, impossível de ser decifrada.
Em um dos braços, ele carregava um casaco.
Um casaco feminino.
Era dela.
Só então Valentina percebeu que, na pressa de atender à ligação, saíra sem colocar nada para se proteger do frio.
Valentina encarou o casaco apoiado no braço dele e suspirou, um som denso e cansado.
Levantou-se, colocou as mãos nos bolsos e passou por ele. Ao roçar em seu ombro, ela disse em voz baixa: — Às vezes eu realmente não entendo para quem você está fazendo esse teatrinho. Afinal, você já não precisa mais fingir que é um cachorrinho fiel querendo me agradar, não é mesmo?
Mas, no exato momento em que ela tentou ultrapassá-lo...
Cícero agarrou seu pulso.
Os dedos dele apertaram a estrutura fina e macia de sua articulação. Ele não afrouxou o toque. E não pretendia soltar.
A voz dele soou abafada, carregada de uma escuridão opressiva, quase sendo arrancada à força da garganta: — Não vá.
Valentina avaliou a tensão rígida no maxilar dele e, de repente, entendeu.
— O quê? Agora vai limitar minha liberdade? Vai me trancar sem o menor respeito pelos meus direitos, como fazia antigamente? — Ela ergueu os lábios em um sorriso gélido de escárnio. — Aonde eu vou ou deixo de ir não é mais da sua conta.
Cícero manteve o aperto firme, encarando-a com uma intensidade sombria.
Ela não podia voltar para Luciano Prado.
Foram oito anos. Durante aqueles oito malditos anos, o mundo de Valentina foi inteiramente preenchido por Luciano. Ela não podia ir embora de novo. Cícero preferia morrer a deixá-la partir mais uma vez.
— Você é minha esposa.
— Toquei no seu ponto fraco? — Valentina o observou, fria e distante. — Ah, então você também sente dor. Mas, me diga, quando você me encurralava na minha sala e me forçava a ficar com você... você parou para pensar se eu também sentia dor? Se eu também queria resistir? A única diferença era que você é mais forte, e eu não conseguia me soltar. Por isso me tornei o alvo perfeito para as suas agressões.
— É tão bom ser mais forte, não é, Cícero?
— É tão conveniente ser um homem e poder usar a força bruta, não é?
Valentina não conseguiu terminar a frase. Em um movimento brusco, Cícero a prensou contra a parede. Com o impacto, as costas dela bateram na pedra, enquanto as mãos dele agarraram sua cintura com força possessiva.
— Eu te imploro.
Em meio a um silêncio marcado apenas por respirações pesadas, ele abaixou a cabeça.
A voz dele saiu rasgada e rouca, beirando o mais profundo desespero. — ...Não fale mais nada.
Aprisionada contra a parede, Valentina baixou o olhar e observou o corpo tremendo daquele homem.
— Se você teve coragem de fazer, por que eu não teria de falar?
— Você mentiu para mim, me machucou, e ainda machucou pessoas inocentes no caminho. — Valentina ergueu a mão, a ponta dos dedos roçando o maxilar dele. No mesmo instante, as veias no pescoço de Cícero saltaram sob a pele esticada.
— Acha que eu não vi? Naquele dia, no aeroporto, você bateu nele bem aqui.
A mão de Valentina desceu. — E aqui.
— E aqui também... — Ela encarou a região do abdômen de Cícero, claramente lembrando-se do estado em que Luciano ficara naquele dia. — Com que direito você fez aquilo?
Na mente de Cícero, as imagens daquele homem e de tudo o que ele já tinha compartilhado com Valentina explodiram como pólvora.
Aquele rosto asqueroso e supostamente refinado não parava de aparecer em sua mente.
A testa dele quase encostava no ombro dela. Suas respirações ofegantes se misturavam no ar noturno. Ele tremia tanto que era incapaz de formular uma única frase completa.

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