Os poucos dias de sua vida que poderiam ser considerados sem dor foram justamente aqueles em que ele mais mentiu.
Cícero já não se lembrava de quantas mentiras havia contado a Valentina.
Naquela época, ela caminhava passo a passo em direção à felicidade, enquanto ele, passo a passo, afundava em um abismo de mentiras.
Um abismo que o distanciava cada vez mais de Valentina.
Parecia que tudo esteve errado desde o início.
Parecia que não deveria ter sido assim desde o início.
Então, como deveria ter sido?
Como, afinal, deveria ter sido?
Ninguém nunca lhe disse como deveria ser.
Desde muito cedo, sua mente só conseguia abrigar uma única coisa, e devia abrigar apenas essa coisa.
Então, o que era Valentina?
O que, afinal, Valentina significava…
A cabeça de Cícero doía terrivelmente.
Sentia que os fragmentos do passado em sua mente estavam se multiplicando, prestes a afogá-lo.
Talvez fossem alucinações causadas pelo uso excessivo de medicamentos.
Talvez fosse ele mesmo se recusando a se perdoar.
Essa dor ruminante o torturava com uma frequência avassaladora.
Seu espírito e seu corpo estavam sendo devastados.
O conselho do Grupo Pacheco ligou inúmeras vezes.
Após a partida de Cícero, os projetos da empresa foram temporariamente assumidos pelo conselho, que logo descobriu que vários deles apresentavam problemas simultaneamente.
Além disso, vários armazéns pegaram fogo ao mesmo tempo, impedindo a entrega das mercadorias no prazo.
Era um desastre.
Hugo entrou apressado para informar Cícero, mas a expressão dele era fria e apática.
Ele não parecia disposto a falar.
Nem mesmo o plano que ele vinha arquitetando por anos lhe importava mais.
Ele só queria saber.
Onde ela estava.
…
O vento no Quênia era muito forte.
Assim que aterrissaram, o chapéu de palha de Valentina quase voou.
Ela o segurou, enquanto seu vestido longo ondulava como as ondas do mar.
Ao lado, Sávio gritou "Ah!" e se agarrou a um pilar próximo.
— Meu Deus.
O garoto gordinho fez uma expressão de desespero.
— Quase que esse graveto aqui foi levado pelo vento.
Luciano havia encontrado uma casa nova lá para deixarem as malas e descansarem.
Só hoje chegaram ao Quênia.
Valentina virou o rosto e bocejou lentamente.
— Nosso roteiro já está todo pronto? — perguntou ela, sonolenta.
— Sim. — Disse Luciano. — Mas está um pouco corrido. Visitar tantos lugares em pouco mais de dez dias... não é realmente necessário. Suas pernas também ficarão muito cansadas. Sempre haverá uma próxima vez. Que tal cortarmos alguns lugares que você não faz tanta questão de visitar e deixá-los para a próxima? O que você acha, Valentina?
A pessoa deitada na cama parecia ter adormecido.
Depois de um tempo, ela se esforçou para responder, arrastando as palavras:
— Não tem problema, viajar é para cansar mesmo... E quem sabe quando será a próxima vez. Melhor fazer tudo de uma vez, para não deixar arrependimentos.
— Tudo bem.
Luciano concordou com uma voz suave, sabendo que ela estava com sono.
Ele a cobriu e, com movimentos leves, foi para o quarto ao lado ajudar Sávio com as malas.
O crepúsculo no Quênia.
Havia um vasto campo não muito longe do hotel, de onde se podia avistar girafas e zebras.
Zebras.
Valentina abriu os olhos lentamente, o rosto ainda afundado no travesseiro, observando o crepúsculo e o pôr do sol pela janela.
O sol estava prestes a se tornar uma linha no horizonte, tingindo o céu com um laranja vibrante.
Depois de tantos anos, ela estava de volta ao Quênia.

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