Os olhos de Valentina brilhavam no escuro, úmidos, como o sol da noite. Sua voz ainda estava um pouco anasalada, mostrando o quão magoada e triste ela se sentia por ele naquela noite. Ela disse com seriedade.
— Não, claro que não.
Naquele momento, o coração de Cícero foi como se perfurado por um espinho macio.
Ele pensou que devia ser por causa daqueles olhos.
Então, ele também respondeu em voz baixa: — Se você não acha, já é o suficiente.
Não, claro que não.
Claro que não...
“Você é um monstro insensível e sem coração...”
“Você é ganancioso, capaz de tudo por dinheiro, egoísta e cruel, desprovido dos sentimentos mais básicos.”
“Se eu soubesse que chegaríamos a este ponto, eu teria te apunhalado sem hesitar no momento em que te vi pela primeira vez...”
À beira do rio, o som do vento e a voz dela. Seus olhos tinham uma expressão entorpecida e calma, enquanto cada palavra perfurava seu coração. “Ou talvez, eu devesse dizer que preferia que nunca tivéssemos nos conhecido.”
…
Rasgado, violento, destruído, esmagado. Cícero sentia seu coração sendo frito em óleo fervente, assado e tostado por aquele olhar que um dia fora como o sol.
Ele quebrou a caneta que segurava na mão.
A tinta espirrou, atingindo seus olhos.
Desde aquele dia, Cícero quase não dormia, quase nunca descansava de verdade.
A tinta escura escorreu de seus olhos. Cícero abriu lentamente os olhos, suas pupilas avermelhadas pela exaustão e pelos capilares rompidos.
Ele sentia dor.
Ele sentia muita dor.
Ele era um esquisito, um monstro, o monstro que ela olhava com tanto desprezo e ódio.
Ele era um monstro.
E monstros não sentem dor.
Cícero sentiu seu corpo tremer novamente, pela enésima vez naquele período.
Quando aquela sensação vinha, sua cabeça parecia prestes a explodir, e seu coração parecia ter um pedaço arrancado, deixando apenas um buraco úmido e sangrento.
Ele se forçou a sair do escritório.
Subiu as escadas, passo a passo, com dificuldade, até chegar ao último andar.
No depósito, tudo estava escuro.
— Dói...
Dói, dói muito.
Quando ela caiu, também deve ter doído muito.
Valentina, você também sentiu muita dor? Valentina, Valentina.
Cícero fechou os olhos com força. A tinta que restava em sua esclera pareceu escorrer novamente. Até respirar era um esforço.
Mas não havia mais nenhuma garota disposta a carregá-lo nas costas com dificuldade, repetindo seu nome com os dentes cerrados.
“Cícero, não durma, logo chegaremos em casa...”
“Cícero, eu vou te vingar. Não vou perdoar quem te machucou...”
“Cícero, não durma, Valentina está aqui, Cícero...”
…
Não se sabe quanto tempo passou antes que a porta do depósito se abrisse completamente.
Inúmeros feixes de luz invadiram o local.
Tadeu, que tentava “roubar” uma foto por semana dali, abriu a porta furtivamente como um rato, mas ao ver a cena diante de si, ao ver seu pai naquele estado deplorável, recuou meio passo, sua respiração presa.

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