Se os papéis estivessem invertidos, ela também teria imposto uma barreira impenetrável.
Porém.
O seu coração doía de maneira incompreensível.
— Eu cheguei durante a tarde. — Explicou Samuel Ferreira de forma suave. — Fernando me informou que você pretendia dar o golpe final em Miguel Santos hoje.
— Não há necessidade de se justificar para mim. — Cortou Maria Luíza Santos friamente. — Esse caso sempre pertenceu à sua jurisdição, então é mais do que justo que você mesmo o encerre.
— Maria... — Murmurou Samuel Ferreira com um tom ameno. — Por favor, não fique com raiva de mim.
— Eu não estou chateada.
Respondeu Maria Luíza Santos asperamente, não querendo desperdiçar mais saliva com Samuel Ferreira naquele momento inoportuno.
Ela deu-lhe as costas e marchou diretamente para a tenda onde as crianças sequestradas recebiam cuidados médicos.
A equipe de intervenção havia providenciado médicos para a operação.
Assim que foram retirados daquelas caixas imundas, os pequenos receberam os primeiros socorros.
A vasta maioria já havia recuperado a consciência e chorava copiosamente.
Algumas das vítimas com constituição física mais frágil, no entanto, ainda permaneciam presas no sono profundo induzido pelas drogas.
Maria Luíza Santos aproximou-se cautelosamente para examinar os pulsos daquelas pequenas crianças adormecidas.
Apenas ao constatar que nenhum deles corria perigo de morte, a pesada pedra em seu peito desapareceu.
— Você já conseguiu entrar em contato com os pais destas vítimas inocentes? — Perguntou ela ao virar-se para o oficial.
— Todos eles já foram notificados. — Afirmou Samuel Ferreira. — Assim que concluirmos os relatórios burocráticos na delegacia, os guardiões legais poderão levá-los para casa em segurança.
— Perfeito! — Confirmou Maria Luíza Santos com um aceno de cabeça. — Vou deixar o restante deste pandemônio em suas mãos.
Assim que proferiu essas palavras, ela tentou girar sobre os calcanhares para ir embora.
No entanto, Samuel Ferreira agarrou firmemente o pulso esbelto dela.
— Maria, eu conheço você muito bem e sei que está profundamente magoada comigo.
Maria Luíza Santos permaneceu em um silêncio sufocante por vários segundos antes de decidir encará-lo com os olhos cintilando de fúria.
— Sim, eu estou enfurecida, mas o alvo do meu ódio sou eu mesma! — Desabafou ela de forma incisiva. — Eu odeio o fardo desta maldita identidade que me força a respeitar protocolos imbecis enquanto assisto pacificamente a canalhas como Miguel Santos causarem miséria! — Sua voz soava cada vez mais afiada. — Eu fui forçada a permitir que essas crianças inocentes passassem por esse pesadelo horrendo apenas para agir de acordo com a lei! — O amargor escorria de cada palavra. — E eu estou ainda mais irritada por ter entregado o meu coração de forma sincera, apenas para perceber que não recebi o mesmo grau de honestidade de volta! — Ela o encarou com intensidade gélida. — Eu me encontro eternamente cercada por inimigos por todos os lados. — Ela continuou enumerando as suas frustrações. — Cada mísera decisão que eu tomo exige que eu calcule meticulosamente ao menos dez probabilidades cruéis e repulsivas. — E concluiu em um tom pesado: — Eu faço tudo isso de forma obcecada simplesmente para garantir que a minha existência seja de alguma utilidade para ajudar a resgatar Dona Rosa...
— Eu sinto raiva por ser absurdamente ignorante perante o verdadeiro caos e totalmente impotente diante deste cenário maldito. — Ela confessou com uma dor palpável na voz. — Ferve o meu sangue saber que precisei esgotar as minhas energias por causa da existência patética de um canalha miserável como Miguel Santos!

Guiada unicamente pelo faro eletrônico preciso de Hadassa Rodrigues, ela conseguiu farejar e interceptar a lata velha ruidosa em que o assassino asqueroso Miguel Santos buscava fugir do inferno.

Porém, apesar do seu motor bestial capaz de engolir a estrada, o automóvel de elite transformava-se em uma piada patética quando tentava desafiar o demônio de duas rodas conduzido impiedosamente por Maria Luíza Santos.
O veículo esportivo luxuoso estava apenas começando a invadir as fronteiras caóticas da zona comercial superlotada quando a figura demoníaca em cima da moto colou no seu para-choque traseiro.
Miguel Santos sentiu a espinha congelar instantaneamente ao reconhecer a silhueta macabra e inconfundível refletida pelo seu espelho retrovisor de luxo.
Os piores pressentimentos aterrorizantes que habitavam as sombras de sua mente haviam se materializado em sangue puro: a bastarda infernal de Maria Luíza Santos operava de mãos dadas com os defensores da lei!
Dominado por esse terror inominável, o fugitivo maníaco pisou o mais fundo possível no pedal que dava vida ao rugido do motor esportivo.
Maria Luíza Santos acelerou insanamente até os ponteiros de sua máquina estilhaçarem os limites da engenharia moderna e ultrapassou a carroceria lustrosa de Miguel Santos.
A motocicleta deslizou o asfalto derretido de forma magistral antes de atravessar arrogantemente e estagnar à frente do veículo blindado em uma armadilha fatal.

— Prepare-se para o salto.

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